Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 2

 

Se está chegando agora, sugiro que leia os posts anteriores:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

Agora sim, pode continuar… Só para lembrar, esse texto contém spoilers. 😉


Começamos o segundo ato em um novo sonho de Harry (Jamie Parker). Em cena, tia Petúnia (Helena Lymbery) e o jovem Harry (Jabez Cheeseman). Ele está no armário sob a ~ escada ~. A mesma escada é utilizada no quarto do Harry adulto, no salão de reuniões do ministério da magia, no escritório de Hermione e dentro de Hogwarts. Como disse no post anterior, um objeto cênico (dois, na realidade, pois há um par de escadas) poderoso para o espetáculo, e extremamente funcional.

Assim que Harry acorda do pesadelo e tem um diálogo com Gina (Poppy Miller), vamos para a sala da diretora McGonagall (Sandy McDade), em Hogwarts, onde ela e o casal estão preocupados com o pesadelo de Harry. No fundo da sala, uma lareira, de onde irrompe Hermione (Noma Dumezweni), que foi até lá usando pó de flu. Provavelmente, tem um escorregador atrás da lareira, porque toda vez que alguém a utiliza chega deslizando como quem desce de um escorregador. Mais uma saída genial da peça para a utilização de um recurso mágico tão conhecido dos fãs.

Alvo (Sam Clemmett) e Delfi (Esther Smith) estão na orla da floresta proibida treinando magia. Especificamente, o feitiço Expelliarmus. Quando Alvo consegue desarmar Delfi com o feitiço, a varinha da menina some e aparecem duas varinhas nas mãos de Alvo. Mais truques mágicos acontecendo na nossa frente. Este, inclusive, acontece algumas vezes em seguida. Nessa cena, uma sequência engraçadinha dá a entender que pode estar havendo um interesse de Alvo por Delfi (que é alguns anos mais velha), ao que Escórpio (Anthony Boyle) reage com ciúmes. Mais um indício da grande amizade entre os dois, ou algo mais? Divago…

Eis que surgem, na floresta proibida, Harry e o centauro Agouro (Nuno Silva) – ele é português, não brasileiro, como o nome poderia sugerir rs –, com uma caracterização impressionante. O único problema é que o figurino é tão gigantesco que o centauro não consegue se movimentar livremente, como um cavalo normal faria. Para sair de cena, Agouro precisa andar para trás, tipo de ré, o que eu achei um pouquinho estranho. Mas o figurino não deixa de ser maravilhoso, só achei pouco funcional. Eu já interpretei um centauro no teatro (muito mais modesto, é claro) e sei bem como é difícil se adaptar a um corpo com quatro patas haha.

Alvo e Escórpio, então, voltam no tempo pela primeira vez. Os inúmeros relógios do cenário começam a girar para trás rapidamente, até que um efeito incrível, que imagino que seja de iluminação, faz parecer que o palco sofreu um impacto. Para que vocês consigam visualizar sem ter assistido à peça, é como se o palco fosse de água límpida e você jogasse uma pedra nele. Há um balanço, um impacto, o efeito visual mais impressionante da peça para mim. Esse mesmo efeito ocorre todas as vezes que os personagens voltam no tempo.

Aí estamos na mesma orla da floresta proibida, porém em 1994, durante o Torneio Tribruxo. Ludo Bagman (não creditado) anuncia o torneio em off enquanto a multidão de figurantes se concentra no centro do palco, olhando para a plateia, como se estivessem assistindo ao começo da primeira tarefa, que aconteceria fora da quarta parede. A jovem Hermione (Cherrelle Skeete, que também interpreta Rosa Granger-Weasley) está no meio da multidão, torcendo por seu amigo Harry. A narração da tarefa dos dragões acontece toda em off, de modo que só acompanhamos o embate entre Cedrico e seu dragão através da narração de Bagman e das reações dos estudantes que estão em cena, muito bem coreografadas. Confesso que a essa altura, depois de já ter visto tantos “milagres” acontecerem, eu estava esperando pelo dragão real e uma supercena de ação, e fiquei um pouquinho decepcionado com a forma como a cena foi feita (eu e minhas decepções com o Torneio Tribruxo haha). Mas funcionou como foi, jogou a cena pra imaginação dos espectadores.

Então retornamos ao presente, e estamos na ala hospitalar de Hogwarts. Dumbledore (Barry McCarthy) aparece em cena, faz alguns movimentos com sua varinha, e desce a ao palco a moldura do quadro de onde o diretor conversará com Harry. Essa cena é muito bonita, e destaca o excelente efeito de iluminação que esconde completamente a parte do corpo de Dumbledore que fica fora do enquadramento da moldura. É como se estivéssemos, de fato, diante de um quadro, com uma pessoa pintada da cintura para cima.

Começam então as revelações sobre as primeiras confusões geradas pelo retorno no tempo. Alvo é da Grifinória, e não mais da Sonserina, Rony (Paul Thornley) é casado com Padma e eles têm um filho, Panju. Rosa não existe mais. Destaque para Rony dizendo seu bordão “Bloody Hell!” (“Maldição!”) quando Alvo pergunta a ele, depois de algumas outras confusões, quem é Panju. Eu estava esperando por isso! Haha. Muito legal ver o constrangimento de Rony e Hermione, em todas as realidades alternativas, ao ouvirem que, no tempo original, são casados e têm uma filha. Dumezweni e Thornley, mais uma vez, arrasam.

Quando Harry pede a McGonagall que ela cuide para que Alvo e Escórpio não se aproximem mais, gosto de um diálogo da peça em que ela diz que foi aconselhada, ao assumir a direção, a não confundir o retrato com a pessoa, quando Harry cita uma conversa com Dumbledore. “Retratos não representam nem metade dos retratados”, ela diz, com seu sotaque afetado. Algo que não havia sido discutido na saga original e que eu gostei bastante de refletir a respeito. Mas divago de novo…

Depois, vemos uma amargurada e carrancuda Hermione como professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, tirando pontos dos alunos um instante após o outro. Preciso falar mais uma vez: Noma Dumezweni, que atriz! <3. Logo depois dessa sequência, uma das mais românticas bonitas da peça: Alvo e Escórpio, que agora estão proibidos de conversar, sobem e descem pelas escadas de Hogwarts, que se movem numa coreografia linda, fazendo com que os pombinhos meninos se afastem sempre que poderiam se aproximar.

Draco (James Howard) vai, então, até a casa dos Potter brigar com Harry porque Escórpio está miserável após a separação forçada entre ele e Alvo. No meio do desentendimento, uma batalha de varinhas em cena! Os feitiços são lançados e, com eles, os efeitos, incríveis: os personagens são suspensos no ar, dão cambalhotas, objetos são lançados, enfim, pura magia. A coreografia dessa cena é maravilhosa!

Depois, uma cena entre Delfi e Escórpio que só faz ressaltar o romance a amizade entre ele e Alvo, com a garota dizendo o quanto Alvo sente falta do amigo e finalizando emblematicamente: “Vocês dois… pertencem um ao outro” (foi a Delfi que disse, eu juro!). Mais uma sacada genial na volta para a casa de Harry: Draco pede desculpas a Gina pela sua cozinha e ela responde que a cozinha não é dela, que é Harry quem cozinha mais por ali. Mais um pontinho pro feminismo, né? Isso sem falar em todo o papo de Draco sobre como ele tinha inveja da amizade entre Harry, Rony e Hermione na escola. Muitos criticaram essa confissão, mas acho que a peça soube onde encaixá-la e eu, particularmente, acho bonito Draco se humanizando com o passar dos anos.

A seguir, temos uma DR cena de Alvo com Escórpio, em que a professora McGonagall tenta procurá-los ao vê-los juntos no mapa do maroto, mas os garotos escondem-se sob a capa de invisibilidade. O efeito aqui é relativamente simples: os garotos saem de cena, e alguns objetos/móveis se movem enquanto eles “passam invisíveis” por eles. Algumas cenas de transição depois, incluindo um encontro maravilhoso entre Rony e Hermione, não casados, conversando sobre a possibilidade, levantada por Alvo.

Vamos, então, para o banheiro feminino no primeiro andar, lar da Murta Que Geme (Annabel Baldwin, que também interpreta Lílian Potter), de onde Alvo e Escórpio pretendem voltar no tempo mais uma vez para consertar as coisas. Além da interpretação divertidíssima de Baldwin, a cena merece destaque pela forma como é executada. Sobre a pia que serve de entrada para a câmara secreta, uma estrutura circular, lembrando (ou talvez seja) uma lira circense. Essa estrutura é muito utilizada por Baldwin, que gira, se apoia, numa partitura corporal que me remeteu mesmo a algumas movimentações circenses. Uma cena bonita e divertida de se assistir.

Os garotos voltam no tempo e reaparecem no ~ lago ~ do Torneio Tribruxo. Sim, no lago. Uma estrutura frontal desce sobre o palco, e mergulhamos com os atores nesse cenário fantástico. Clemmett e Boyle estão suspensos, movimentando-se como se seus personagens estivessem, de fato, nadando. Alguns efeitos bem rápidos simulam a passagem dos outros competidores, até que Cedrico (Jack North) surge e os meninos utilizam nele o feitiço de ingurgitamento. Cedrico começa a inflar como um balão e sai de cena sendo “impulsionado” para cima devido ao feitiço.

Voltamos ao presente, o cenário do lago desaparece e, de um tanque real, até então oculto, no proscênio, emerge Escórpio, encharcado. Ele acabou de sair do lago. Genial. Alvo não retorna. Quem tira o garoto do lago é a agora diretora Umbridge (Helena Lymbery). Estamos na Hogwarts sombria. Para fechar a primeira parte com chave de ouro, emergem, das laterais do palco, dois dementadores. São enormes, idênticos aos dementadores dos filmes. Eles flutuam sobre a diretora e Escórpio. Quando estamos começando a nos recuperar do impacto, um novo dementador surge, sobrevoando a plateia. Ele passa por todos nós até chegar ao palco. Escórpio fica sabendo que está sendo comemorado o Dia de Voldemort. As cortinas se fecham. Fim da primeira parte.

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Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

Chegou aqui agora? Sugiro começar por aqui:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Já leu o texto anterior? Agora sim, vamos seguir com o review.


A peça começa na estação King’s Cross, velha conhecida dos fãs de Harry Potter. Várias malas estão espalhadas pelo cenário, malas essas que vão ter muita utilidade cênica durante todo o espetáculo. Primeiro elogio à peça: a utilização dos objetos cênicos e cenários é inteligentíssima e facilita bastante as coisas do ponto de vista técnico. Do alto do enorme palco, um relógio transparente, de onde vem a “luz da rua”. A iluminação do espetáculo é outro ponto alto: os inúmeros canhões de luz colocados cirurgicamente em cada ponto necessário ajudam a peça a acontecer em todos os lugares, do palco à plateia às paredes do teatro.

Primeiro desafio do espetáculo: o envelhecimento dos personagens jovens. Alguns anos se passam durante a história, e, enquanto para Harry (Jamie Parker), Ron (Paul Thornley) e Hermione (Noma Dumezweni) essa passagem é menos problemática, porque os personagens já são adultos, Alvo (Sam Clemmett) e Escórpio (Anthony Boyle) interpretam os mesmos personagens dos 11 aos 14 anos, período em que as mudanças físicas e emocionais costumam ser mais intensas. Fisicamente, seria muito complicado incorporar essas mudanças. A transformação ocorre na postura dos personagens, nos seus diálogos, na sua forma de interpretar. Todos os atores jovens (não só Clemmett e Boyle) fazem essa passagem de forma bem natural e convincente. O que poderia ser um grande desafio não gera nenhum incômodo.

Clemmett dá vida a um Alvo enérgico, tenso, cheio de inseguranças de um pré-adolescente, enquanto Tiago Sirius (Jack North), seu irmão mais velho, tem a vibração descontraída e confiante que costumávamos ver nos gêmeos Weasley. Gina (Poppy Miller) tem um quê de Molly, no carinho afetuoso com Alvo, na forma como se porta como mãezona, mas que sabe se impor. É bonito ver que Gina pode ter se transformado em uma versão moderna de sua mãe, personagem que tanto cativou os fãs da série e que certamente seria um exemplo para a filha seguir. Parker, por sua vez, dá vida a um Harry tenso como seu filho do meio – algo que depois de algum tempo faz sentido, mas isso é assunto para outro post –, meio desajeitado na função de pai. Muitas críticas ao roteiro da peça recaem sobre o pai que Harry se tornou. Pessoalmente, discordo um pouco dessas críticas e acho que estão mais ligadas à expectativa que tínhamos para o desenvolvimento do Harry do que de fato para alguma implausibilidade. Por que mesmo Harry não poderia se tornar um “mau” pai? Divagação à parte, o fato é que Jamie Parker, como a grande maioria do elenco, está muito bem no papel.

De King’s Cross, passamos à plataforma 9 ½, onde somos apresentados a Rony, Hermione e sua filha Rosa Granger-Weasley (Cherrelle Skeete). A peça transforma Rony em um homem que mantém um certo humor bobão de quando era adolescente, algo que Thornley consegue imprimir muito bem. Dumezweni está soberba, impecável, uma das melhores intérpretes do espetáculo, como a imponente Hermione, que passa por muitas transformações emocionais durante a peça. Preciso comentar o quanto amo o fato de terem escolhido dar vida a uma Hermione preta, poderosa, empoderada, ministra da magia. Ponto pro espetáculo. Já Skeete interpreta uma versão ainda mais insuportável da pequena Hermione, estridente, mandona e cheia de certezas. A relação entre Hermione e Rony é linda de assistir. Eles se completam. Nessa cena na plataforma, amo quando Rony faz uma brincadeira besta e é recriminado por Rosa. Hermione, então, diz: “O que você chama de bobo, ele chama de glorioso… algo entre as duas coisas”. Muito amor! É nessa cena, também, que vemos Alvo repetir seu pai, morrendo de medo de ser colocado na Sonserina. Só que o destino de Alvo foi um pouco diferente do de seu pai. Neville Longbottom também é lembrado nessa cena, em uma única menção honrosa no espetáculo, quando Hermione pede a Rosa que transmita “carinho” ao velho amigo, ao que a menina responde rapidamente: “Mãe, não posso transmitir carinho a um professor!”. Neville, para quem não se lembra, tornou-se professor de Herbologia em Hogwarts. Por onde será que anda a professora Sprout? =P

Saímos da plataforma 9 ½ para viajarmos no famoso Expresso de Hogwarts. Eu estava curiosíssimo para saber como o enorme trem e seus vagões seriam representados no palco. Lembram-se das malas? Pois é. Agora elas tomam as formas e contornos dos vagões. Colocadas em fileiras ao longo do palco, juntamente com a fumaça e os efeitos sonoros, simulam perfeitamente o trem em movimento. Alvo e Rosa têm um pequeno momento caminhando pelo trem até surge o melhor personagem de toda a peça: Escórpio. Boyle é fenomenal no papel. Junto com Dumezweni, um dos melhores. Desengonçado, sem jeito, ansioso, geek e extremamente carismático. Exatamente como o personagem demanda. Você vai com a cara do Escórpio desde o primeiro instante, justamente o oposto do que ocorre quando conhecemos seu pai na saga original. Quando ele canta “sweets they always help you make friends” (“os doces sempre ajudam a fazer amigos”) para Alvo e Rosa, você já percebe o enorme potencial cômico do intérprete, que usa e abusa do carisma de seu personagem para explorar essa faceta cômica. Um dos primeiros truques mágicos utilizados na peça acontece nessa cena: quando Escórpio come alguns doces, eles o fazem soltar fumaça pelas orelhas. O efeito cênico é bem interessante e divertido, e a sincronicidade é perfeita.

Do Expresso, vamos a Hogwarts. O avançar dos anos é encenado de forma bastante dinâmica. Como em estalos, com uma mudança de cenário ou com uma simples movimentação ou comentário de algum personagem, você percebe que mais um ano se passou. Nessa passagem, é preciso destacar a presença do Chapéu Seletor (Chris Jarman). Na peça, um ator com um chapéu coco faz as vezes do personagem. A seleção ocorre da seguinte forma: Jarman, com presença de palco e imponência marcantes, chama por um dos alunos. O aluno se aproxima, Jarman tira o chapéu coco de sua cabeça e o coloca sobre a cabeça do estudante. Com uma partitura cênica bem marcada, ele ergue o chapéu por alguns instantes, aproxima-o novamente da cabeça do estudante e, então, anuncia firmemente a casa à qual aquele estudante pertence, quando dezenas de estudantes figurantes no fundo do palco comemoram o anúncio. Boa parte do mérito dessa encenação se deve à força cênica de Chris Jarman. O ator é uma figura cênica fortíssima. Além do Chapéu Seletor, ele interpreta Hagrid e faz contrarregragem em muitas cenas com a mesma precisão que garante que suas aparições sejam tão intensas quanto seus momentos de contrarregragem sejam discretos. Um grande acerto.

Na aula de vôo com Madame Hooch (Helena Lymbery), somos transportados pela primeira vez aos filmes de Harry Potter. Lá estão os primeiranistas olhando ansiosos para suas vassouras e gritando “Up!” (“Suba!”). Outra vez, a magia acontece na sua frente: as vassouras dos personagens vão subindo para suas mãos, aparentemente sem nem um fio que as ergam do chão.

Durante essas passagens de anos, em uma nova cena na estação King’s Cross, aparece, pela primeira vez, Draco Malfoy (James Howard). Como eu disse no post anterior, o intérprete original de Malfoy é Alex Price, porém, nos dias em que eu assisti, era Howard que estava no papel e o desempenhou muito bem, diga-se de passagem. Fiquei até surpreso quando vi que ele era substituto. Ingenuidade minha, claro. É óbvio que os substitutos são muito bem treinados para desempenharem os papéis caso seja necessário. A primeira interação entre Harry e Draco nos mostra como evoluiu a relação entre esses personagens desde que saíram de Hogwarts. Draco herdou de seu pai uma certa arrogância e irritação quando é contrariado, mas percebemos que os antigos inimigos tratam-se com respeito e alguma cordialidade.

Anthony Boyle se mostra novamente maravilhoso interpretando a relação de Escórpio com Rosa, na cena em que ela dá um fora nele na estação quando ele tenta cumprimentá-la e ele responde: “Ela é comovente”. Aqui, uma ressalva: muitas pessoas que conheço cogitaram um romance entre Escórpio e Alvo ao lerem a peça. Eles têm muitos momentos fofos, é dito inúmeras vezes que são as pessoas mais importantes um para o outro e teria sido completamente plausível se eles fossem gays. Teria sido tão genial como a Hermione preta, mas a peça não dá esse passo e investe na relação (engraçada, não podemos negar) entre a filha de Hermione e o filho de Malfoy.

Num rápido momento, ainda nessa passagem, somos introduzidos à professora McGonagall (Sandy McDade), o que me leva a uma observação importante. Os novos personagens, bem como os personagens antigos que, durante os filmes da franquia, eram jovens e, durante a peça, são adultos, estão livres de um “peso” específico. Interpretar personagens como McGonagall, Snape, Hagrid ou Dumbledore, já eternizados no cinema, respectivamente, por Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane e Richard Harris/Michael Gambon não é uma tarefa fácil. Gambon sofreu muitas críticas (algumas, com razão) ao substituir Harris no cinema após sua morte. Na peça, sofremos esse incômodo. A afetação proposta por McDade, inclusive em seu sotaque, para interpretar McGonagall, não me agradou. A personagem da peça não tem um terço da força da personagem do cinema.

Novamente na estação de King’s Cross, enquanto Alvo – agora no terceiro ano – e Harry têm uma pequena discussão, mais magia: Alvo aponta sua varinha para o formulário de Hogsmeade e lança o feitiço: “Incendio!”, ao que o pedaço de papel pega fogo diante dos nossos olhos. Simples, sutil, genial.

Quando essa passagem temporal finaliza, estamos no gabinete de Harry no ministério da magia. Uma pequena saleta com uma mesa cheia de papéis bagunçados. Hermione dá uma bronca em Harry pela bagunça em seu gabinete, e o que temos? Mais magia. Harry aponta a varinha para a pilha de papéis desorganizados e ela magicamente se organiza diante de nossos olhos, sem nenhum recurso técnico aparente. Chama-se, no cinema, esse recurso de “opacidade”. Para a peça, um recurso muito importante. Você não vê os truques acontecerem, a mágica parece estar, de fato, acontecendo ali, na sua frente. Acho legal, nessa cena, quando Hermione come caramelos num “ato de rebeldia” contra seus pais dentistas, que sempre a proibiram. Sempre é bom ver Hermione quebrando regras, haha. =D Mas, sério, acho que esse pequeno detalhe mostra, também, uma evolução da personagem, que talvez tenha se percebido um tanto “escrava” das regras e agora diz “a certa altura eu tinha de me rebelar”. Talvez eu esteja viajando, mas fiquei com essa sensação, rs.

Do ministério vamos à casa de Potter, onde aparece pela primeira vez o segundo objeto cênico que irá ser chave para a montagem de diversas cenas: a escada. Nessa cena, Alvo está sentado na escada ouvindo seu pai conversar com Amos Diggory (Barry McCarthy), mais um ator bem forte em seu papel. Outra personagem inserida nesta cena é a polêmica Delfi Diggory (Esther Smith), brilhantemente interpretada por uma atriz cheia de força cênica e carisma. Sério. Smith é impressionante como Delfi. Você sente vontade de ficar amigo dela assim que ela aparece em cena. Perfeito para o papel que ela interpreta.

A seguir, uma das cenas chaves para o desenvolvimento da peça: no quarto de Alvo, Harry dá a manta de Lílian para seu filho do meio, os dois discutem, Harry diz que às vezes não queria que Alvo fosse seu filho, e Alvo joga o cobertor longe, derrubando-o sobre a poção do amor que ele ganhara de Rony. Quem leu o texto sabe que essa cena é crucial por uma série de fatores. O mais impressionante aqui é a exatidão dos movimentos: a manta tem que cair sobre a poção, e só quem já fez teatro sabe quanto é difícil sincronizar um objeto que precisa ser lançado em um local específico. Assim que a manta derruba a poção, esta solta uma fumaça indicando que ficou impregnada no cobertor. Sabemos o porquê disso e a peça consegue mostrar esse momento tão fugaz, mas tão essencial, com muita clareza e precisão.

Depois disso, uma das cenas mais nostálgicas de toda a peça. Estamos no casebre sobre as rochas, dentro de um sonho de Harry. O jovem Harry (Jabez Cheeseman), Duda (Joshua Wyatt), tio Válter (Paul Bentall) e tia Petúnia (Helena Lymbery – a mesma intérprete da Madame Hooch) estão encolhidos atrás de uma cama, após ouvirmos um estrondo do alto da ~ escada ~. Da escada, desce Hagrid (Chris Jarman – que também interpreta, para lembrar, o Chapéu Seletor). Aqui temos uma linda cena que nos transporta diretamente ao filme Harry Potter e a Pedra Filosofal, quando o meio-gigante vai, finalmente, entregar a Harry a carta de admissão em Hogwarts. Com direito a espingarda entortada e bolo de aniversário amassado. Emocionante.

Após algumas cenas, estamos no Expresso de Hogwarts, quarto ano de Alvo e Escórpio, e uma passagem que eu gostaria de destacar, sobre a relação entre os meninos e deles com Rosa. Ao avistar Rosa, Escórpio elogia seu “cheiro”, o cheiro de uma mistura de flores vivas e… “pão fresco” (“Um lindo pão, um bom pão, um pão… o que tem de errado no pão”, ele vai se perguntar, após perceber que fizera a garota ir embora irritada). Após essa passagem engraçadinha, Alvo demonstra estar com muita saudade de Escórpio, eles se abraçam “com força” e “ficam abraçados por um tempo” (isso está nas rubricas da peça). Escórpio, desajeitado como sempre, pergunta: “Hmm. Já nos abraçamos antes? A gente se abraça?”, e a rubrica continua: “Os dois meninos ficam sem jeito e atrapalhados”. Em cena, é lindo ver isso acontecer. Boyle e Clemmett sabem passar exatamente esse constrangimento constante que seus personagens têm. E fica aí mais um indício que a teoria do shipper #Scorbus faz algum sentido.

Quando Alvo e Escórpio decidem que eles não irão mais para Hogwarts, eles decidem sair por onde? Pelo teto do Expresso de Hogwarts! Outro cenário que eu estava curiosíssimo para saber como seria montado. Novamente, as malas irão ajudar a compor uma espécie de plataforma sobre a qual os dois, juntamente com a Bruxa do Carrinho (Sandy McDade, que também interpreta Minerva McGonagall) fazem uma cena bem divertida, com mais magia, palco giratório, sonorização de externa e efeitos visuais para ajudar a nos transportar para o exterior de um trem em movimento. Mais uma curiosidade sobre o texto: muita gente fica indignada quando a Bruxa do Carrinho diz que ninguém que já tinha tentado fugir do trem havia conseguido, inclusive Sirius Black e os gêmeos Weasley, mas Alvo e Escórpio conseguem facilmente. Isso não me incomodou muito porque, na realidade, é apenas a frágil memória de uma senhora que nem sequer lembra mais seu nome (algo que eu, aliás, acho genial). Inclusive, ressaltando um ponto que eu tinha colocado alguns parágrafos atrás, McDade está incrível como a Bruxa do Carrinho, muito melhor do que sua leitura de McGonagall (ou talvez eu só esteja muito apegado à McGonagall original).

O salão de reuniões do ministério da magia é composto através de… ~ escadas ~. Hermione, a ministra, fica do alto da escada enquanto diversos bruxos e bruxas figurantes estão no patamar abaixo, ouvindo seus anúncios. Depois, temos uma cena superpoética no Lar St. Oswald para Bruxas e Bruxos Idosos, onde está internado Amos Diggory. Há coreografia, andadores ganhando vida, enfermeiros dançando. É a magia pela magia, sem propósito, só para passar o tempo daqueles velhinhos que se divertem. Lindo, lindo de ver. Aliás, esse foi um ponto que eu ainda não toquei: as passagens de cena e trocas de cenário, sempre muito bem executadas, envolvem muitas coreografias, muitas capas esvoaçantes, são puro entretenimento de alta qualidade entre uma cena e outra.

Passadas algumas cenas, estamos no porão em que Alvo, Escórpio e Delfi tomarão poção polissuco para se transformarem, respectivamente, em Rony, Harry e Hermione. A transformação no palco é GENIAL. Provavelmente por meio de alçapões, os atores se transformam uns nos outros sob suas vestes. Enquanto Esther Smith, por exemplo, implode para dentro de sua veste, Noma Dumezweni irrompe de dentro dela instantaneamente, passando de Delfi a Hermione em um passe de mágica. Não bastasse esse momento maravilhoso, quando eles se dirigem à cabine telefônica para irem ao ministério, suas capas são inteiramente sugadas para dentro do aparelho e eles simplesmente desaparecem, mais uma vez, diante dos nossos olhos.

Uma vez transfigurados, volto a destacar a boa interpretação do trio: Dumezweni, Jamie Parker e Paul Thornley estão, agora, na pele de Delfi, Escórpio e Alvo se passando por Hermione, Harry e Rony. E como fazem isso bem! Dá pra sentir a mudança sutil na interpretação deles, desde quando se surpreendem com a própria transformação, até depois, no ministério, querendo disfarçar sua adolescência na pele de adultos. Enquanto isso, no ministério, os ânimos entre o verdadeiro Harry e Malfoy vão se exaltando cada vez mais devido ao sumiço dos meninos. Nesse momento, uma das ações que mais me impressionaram em toda a peça. Delfi, Escórpio e Alvo (transfigurados) ouvem os verdadeiros Hermione e Harry se aproximando. Eles, então, saem por uma porta, no fundo esquerdo do palco. Depois de duas (exatamente) frases em off após a passagem pela porta, vemos Hermione e Harry chegando pela ponta direita da coxia. Ou seja, num espaço de aparentemente dois segundos, Noma Dumezweni e Jamie Parker passam do fundo esquerdo para a coxia direita do palco, uma caminhada que normalmente levaria pelo menos uns 20 segundos. Fiquei muito impressionado com isso e até agora não faço ideia de como foi feito.

Um destaque deve ser feito aqui para Paul Thornley (Alvo/Rony), que fica engraçadíssimo tentando despistar a verdadeira Hermione. Esse diálogo entre Alvo/Rony e Hermione é MARAVILHOSO: ALVO/RONY: “Vamos ter outro filho. Ou, se não outro filho, férias. Quero um filho ou férias e vou insistir nisso”. HERMIONE: “Um filho – OU – férias? Há dias que você passa dos limites, sabia disso?” hahaha.

Por fim, é no gabinete de Hermione que acontece a última cena do primeiro ato, e também uma das mais impressionantes. Na busca pelo vira-tempo escondido, Delfi, Alvo e Escórpio enfrentam a biblioteca de Hermione. A biblioteca engole os atores (que estão transfigurados) e os cospe de volta em suas versões originais, à medida que a cena vai se desenvolvendo uma verdadeira batalha contra os livros que engolem os personagens vai ganhando contorno até que, depois de desvendar todas as charadas propostas, eles encontram o vira-tempo. A partitura corporal dos atores, aqui, é fundamental para que a cena se passe como se passa. Seus corpos se dobram, esticam e são impulsionados contra uma pilha de livros de modo que parece que eles estão sendo mesmo sugados e cuspidos para dentro e para fora da estante. Vira-tempo em mãos, é hora do intervalo. E o ato 2 fica pra amanhã!

P.S.: Todas as fotos utilizadas neste post são fotos originais de divulgação do espetáculo. Não é permitido fotografar durante a peça e eu também não perderia minha experiência fotografando haha.

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Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Minha experiência com a peça Harry Potter and the Cursed Child foi tão intensa que decidi fazer um review da peça (na verdade quatro, um por ato) aqui no blog para que a experiência esteja sempre viva em minha memória. Não vou economizar nos detalhes, vai ter spoilers e vou focar bastante na parte técnica teatral também, porque eu faço teatro e sou apaixonado por essa arte.

Utilidade pública

Antes de começar, informação útil pra você que está pensando em cometer uma loucurinha como eu e ir assistir à peça em Londres:
Até quando a peça fica em cartaz? Por enquanto, há ingressos à venda até julho de 2018.
Como comprar ingresso? Pela internet, no site exclusivo da peça que você acessa clicando aqui. Você pode comprar da Nimax ou da ATG tickets. Os preços são os mesmos.
Quanto custa? Os ingressos variam de 30 a 140 libras esterlinas dependendo do lugar escolhido. Aconselho a comprar com muita antecedência, boa parte das datas não tem mais lugares disponíveis.
Dica: todas as sextas-feiras, o site disponibiliza uma promoção chamada Friday 40. Através desta promoção, são vendidos 40 ingressos promocionais, com preços imperdíveis, em excelentes lugares do teatro. Mas você pode imaginar como eles são concorridos, né?
Onde são as apresentações? Palace Theatre (113 Shaftesbury Ave, London W1D 5AY, England)
Qual a duração da peça? 2h40 (parte 1) | 2h35 (parte 2). Ambas as partes têm um intervalo de 20 minutos entre os atos.
Curiosidade: Uma nova versão da peça será produzida em Nova York. A estreia está prevista para abril de 2018.

Como tudo começou…

Agora sim, vamos começar a conversa: quando o projeto da peça começou a tomar forma, eu já sabia que aquilo iria me impactar de forma diferente. Sou ator, amo teatro, e a possibilidade de ver o universo Harry Potter expandido para os palcos era muito excitante. O texto nasceu, e eu devorei imediatamente. Como muitas pessoas que leram, tenho lá minhas críticas ao roteiro, especialmente por ter envolvido as duas questões do universo HP que mais me incomodam: o vira-tempo e o Torneio Tribruxo. Acho muito perigoso mexer com o tempo em qualquer história e sempre achei o Torneiro Tribruxo uma péssima ideia do Voldemort. Além disso, tem a Delfi, né? Tipo, todo esse lance de filha do Voldemort com a Belatriz que até hoje está todo mundo esperando ser melhor explicado, porque né? Quando Bella esteve grávida? Mas, enfim, superados os traumas, a peça tem coisas excelentes. Não é minha intenção aqui fazer uma crítica ao roteiro. Talvez num outro momento, mas esses comentários vocês têm aos montes na internet. Acho que posso contribuir mais com a minha experiência assistindo ao espetáculo.

Minha experiência

Data: 20 de abril de 2017 – 19h30 (parte 1) | 21 de abril de 2017 – 19h30 (parte 2)
Localização no teatro: Stalls – a visão desse lugar é excelente, no nível do palco, então você vê tudo com bastante nitidez. Comprei porque era o lugar disponível, mas se alguém puder escolher, recomendo super o lugar.
A peça tem um elenco original e atores substitutos para todos os papéis. Nos dias em que eu assisti, houve as seguintes substituições:
– Jack North interpretando Cedrico Diggory, Tiago Sirius Potter & Tiago Potter (interpretados originalmente por Tom Milligan)
– Joshua Wyatt interpretando Duda Dursley, Karl Jenkins & Vítor Krum (interpretados originalmente por Jack North)
– James Howard interpretando Draco Malfoy (interpretado originalmente por Alex Price)
Dessas substituições, a maior de todas foi a do intérprete do Draco, porque os outros personagens são menores. Não assisti com Alex Price, mas posso dizer que a atuação de Howard como Malfoy não deixou nada a desejar. Ele estava incrível no papel.
Além disso, os papéis de Harry Potter (jovem) e Lílian Luna Potter, por serem interpretados por crianças, sofrem um rodízio de atores. Nas datas em que assisti, Jabez Cheeseman interpretou brilhantemente o jovem Potter, enquanto Hope Sizer ficou com o papel de Lílian Luna.
A partir de amanhã, farei uma sequência de posts comentando detalhadamente cada ato da peça. Espero que gostem!

Próximos textos:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

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Poesia viva

(poesia dedicada a Stefanye Trombini)
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Poesia de próprio punho
É pura tinta na folha.
Não quer saber de rascunho,
Ela vive em sua bolha.

Poesia inquietante,
É suave, inteligente.
É pequena ou é gigante,
Mas sempre surpreendente.

Poesia feminina,
Universo virtual.
Só começa e não termina:
Faz parte do ritual.

Poesia delicada,
Vai do Sul até o Norte
Sempre suave e ousada,
Sempre serena, mas forte.

Poesia de presente,
De passado e de futuro,
Poesia diferente
Que atira no escuro.

Poesia mafiosa,
Sobrevivente do caos:
Métrica meticulosa
Que separa os bons dos maus.

Poesia de lembrança,
De memórias de verdade.
Poesia de herança,
Fruto da maternidade.

Poesia pra quem pode,
Pra quem é forte o bastante.
Se a rima a bolha explode,
O afeto é transbordante.

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Treze sensações

Começaram os burburinhos, o hype veio forte, a temática me é sensível, e, quando vi, estava devorando 13 reasons why. Agora finalmente acabei de assistir à primeira temporada da série, li muitas opiniões, favoráveis e contrárias ao argumento e à forma como a questão do suicídio é retratada na série. Ninguém precisa de mais um manual. Não vou recomendar nem desaconselhar a série. Acho que cada um que se sentir confortável com a ideia deve assistir à série e tirar suas próprias conclusões. Mas se você estiver em situação vulnerável, sugiro que considere conversar com outras pessoas que assistiram à série para perceber se irá se sentir confortável. Se precisar de ajuda, lembre-se de que você tem alternativas. Tente encontrar alguma que seja possível para você. Procure um amigo. Procure seus pais. Me procure (estou aqui, mesmo!). Ligue para o Centro de Valorização da Vida (CVV) – 141. Ou só respire fundo (ajuda bastante) se todo o restante for muito difícil agora. Dito isto, pode ficar tranquilo, você não vai encontrar spoilers por aqui. Não vou me preocupar, também, em ser sucinto. Continue por sua conta. Vou deixar aqui treze sensações que a série me provocou, e peço licença para ser tão pessoal quanto nunca fui aqui no blog:

1 – Bullying mata

Brincadeira é quando todo mundo está se divertindo. Bullying não é mimimi, não é “algo natural da época escolar”, não é brincadeira. Não deve ser encarado desta forma. Sofri bullying durante toda minha vida escolar e em parte da acadêmica. Foram anos de exclusão, isolamento, humilhação, ameaças e vulnerabilidade. Eu não estava preparado para nada daquilo. Eu era uma criança, e lidei com uma série de fantasmas que me assombram até hoje. Sozinho. E se eu não tivesse “sido forte”? E se eu não tivesse sobrevivido? Alguém se importou? Eu, assim como Hannah (personagem principal da série), tenho “porquês” de sobra. Guardo nomes. Sobrenomes. Eu sobrevivi. Mas quantos não? Guardo o pânico que eu experimentei. Isso provavelmente vai me acompanhar pra sempre. Essa experiência terrível só serviu para me mostrar que as pessoas podem ser horríveis, que a escola é um ambiente hostil e que a fragilidade é encarada como um pecado. Vamos à segunda sensação.
2 – As escolas são cruéis e negligentes

Nossas escolas, assim como a escola de Hannah, são completamente despreparadas para lidar com jovens em situação de sofrimento. Passei, ao longo da vida, por quatro escolas, todas particulares, e por uma universidade federal. Ambientes privilegiados que, em tese, deveriam estar preocupados com o bem estar de seus alunos. Não estavam. Fui ameaçado, atacado, perseguido por estudantes, professores e coordenadores que me humilharam, expuseram e em nenhum momento se preocuparam em cuidar de mim de verdade. Eu procurei ajuda. Nenhuma escola levou o assunto a sério o suficiente. Nenhum bully foi punido. Somente eu fui intimidado, invadido, exposto. Doeu muito e eu estava sozinho. Passemos adiante.
3 – É difícil lidar com a dor e a solidão

Mais uma vez, aqui me identifico com Hannah. Bullying dói. Machuca a alma da gente pra sempre. Cria feridas que nunca vão cicatrizar. Sentir-se sozinho para lidar com o bullying aos 6, aos 9, aos 12, aos 15, aos 19 anos, é uma dor que vocês nem podem imaginar. Especialmente aqueles que não passaram nem perto de conviver por mais de 10 anos com ele. Não adiantava mudar de escola. Não adiantava mudar de cidade. Não adiantava ser simpático. Carismático. Ter amigos. Não adiantava nada. O bullying agredia, cortava, sufocava, e no fim do dia eu estava sozinho. Eu sentia vergonha. Eu não queria que ninguém soubesse. Eu precisava ser forte. Eu me cobrava essa força. Mais um trauma. Meus bullies? Sinceramente? Provavelmente seguiram levando a vida deles. Nunca nenhum deles precisou lidar com o sofrimento que me causou. Nunca. Próxima sensação.
4 – Os bullies não vão se sensibilizar

Uma das coisas que mais me incomodou durante minha empreitada com a série. Bullies não se importam. É simples. Olhe ao redor. Veja quem está vendo a série. Quem está discutindo. Quem está lendo esse post. Não são os bullies. Eles vão continuar vivendo a vida deles da forma como eles acham correto. Agredindo. Assediando. Coagindo. Ameaçando. Conscientização? Sério? Isso é ineficaz com eles.Eles não estão nem aí se Hannah Baker se matou. Enquanto o bullying for encarado como brincadeira e sem punições concretas a quem pratica, as pessoas vão continuar achando normal usar os outros de escada para a sua popularidade, ferindo os outros por suas próprias inseguranças etc. Compreender o bully é relativamente fácil. Difícil é agir. Somos nós, as vítimas, que precisamos agir, de alguma forma, em algum ato de desespero, para que não sejamos as próximas Hannah’s. Alguns de nós irão conseguir. Eu consegui. Outros não. De quem é a culpa? Próximo ponto.
5 – Precisamos tratar da nossa saúde mental

É só olhar ao redor. Você conhece um ansioso. Você conhece alguém com tendência depressiva. Você conhece alguém que já teve pensamentos suicidas. Muitas vezes parece não haver ninguém por essas pessoas. Eu faço terapia desde, sei lá, meus 8 anos. Eu elaboro as minhas questões. A terapia me ajudou a sair de estados de pânico, de ansiedade extrema, de tristezas tão profundas que me tiravam as forças. Mas somos o tempo todo desencorajados a cuidar e nos preocupar com nossa saúde mental. “Psicólogo é coisa de doido”. “Eu lido bem com meus próprios problemas”. “Não acho que preciso disso”. “Daqui a pouco a dor passa passa”. Precisamos cuidar uns dos outros. Precisamos nos cuidar. Exercício físico, yoga, terapia, psicanálise, psiquiatra. Tanto faz. Vamos cuidar da nossa saúde mental, por favor. É necessário.
6 – Lidar com a nossa responsabilidade é duro

(pequeno spoiler) Vi muitos comentários sobre a demora de Clay em ouvir as fitas de Hannah. Não me incomodou. Clay era um dos porquês de Hannah ter cometido suicídio, e ele não fazia ideia de porque estava na lista. (/fim do pequeno spoiler). Também somos cruéis. Em muitos níveis. Estamos preparados para encarar isso de frente? Para repensar nossas ações e como elas podem impactar os outros? Estamos preparados para lidar com nossas responsabilidades, mesmo quando nossas ações causam dor e desespero, em pessoas queridas ou em desconhecidos?
7 – Nós ouvimos os pedidos de socorro?

Quantas vezes paramos para ouvir os pedidos de socorro? Vamos parar de fingir que não os escutamos. Não são sussurros, são gritos. Altos e claros. Não estou bem. Preciso de ajuda. Quero ficar sozinho. Estou me sentindo angustiado. Sinto um aperto no peito. Pode ir embora. Como agimos quando nos dizem essas coisas? Próximos ou não de quem nos falou, se nos falou, é porque, por algum motivo, encontraram em nós espaço para um grito. Pode ser o último grito. Vamos mesmo silenciar? Virar as costas?
8 – Precisamos de ajuda!

Todos nós precisamos de ajuda às vezes. E o que fazemos? Não precisamos ser fortes! Não temos que… nada! Está tudo bem em pedir ajuda, em contar com o outro. Não estamos sozinhos. Temos que ter uns aos outros. Precisamos.
9 – O que dissemos tem impacto

Aquela brincadeira inocente. Aquela designação para o “papel de árvore” na peça de teatro da escola. Aquela zoação com o sotaque do colega. Aquela pressão para o menino tímido chegar nas menininhas da escola. Aquela dúvida sobre a palavra do outro. Aquela exposição do outro ao ridículo. Aquela ameaça. Aquela intimidação. Aquela reunião de pessoas contra um indivíduo. Cada ato, uma cicatriz. Você pode fingir que você não feriu ninguém ou lidar com o impacto das suas ações.
10 – Não sabemos pelo que os outros estão passando

Não subestimemos a dor do outro. Vamos ESCUTAR. Pelo amor de deus, vamos nos escutar! Todo mundo tem tanta demanda de fala, mas tão pouca disponibilidade de escuta. Vamos ser sensíveis. Nunca sabemos pelo que os outros estão passando. Sejamos cuidadosos com o próximo. Isso pode ser a diferença entre um dia a mais ou não.

 

11 – Amar quem nós somos é incrivelmente difícil

Você que está lendo isso aqui: eu tenho certeza que consigo encontrar facilmente muitas coisas lindas em você. Mas será que você enxerga essas coisas? E você, vê algo bonito em mim? Será que eu também sou capaz de ver isso? Todos temos muitas dificuldades em enxergar o quão extraordinariamente bonitos somos, e o bullying, nem preciso dizer, não ajuda em nada. Vamos ajudar os outros a enxergarem sua beleza, e não aumentar ainda mais o peso de seus fardos.
12 – Suicídio não deve ser um tabu

Não vou debater a forma com que a série aborda o tema do suicídio. Não sou especialista, nem nunca tive pensamentos suicidas ou depressão. Minha posição só me permite saber as sensações que a série provocou em mim, com meu background, e é isso que estou compartilhando com vocês. Mas precisamos falar sobre suicídio. Precisamos discutir a questão. Precisamos enfrentar o quão fracos temos sido quando lidamos com o tema. Podemos garantir o amanhã de alguém dessa forma.
13 – Todos nós podemos ser um porquê de alguém

Todos nós temos potencial para ser o porquê de alguém. Por não percebermos o limite das nossas ações, por mentirmos a respeito do outro, por abandonarmos o outro, por usarmos o outro como pretexto egocêntrico para obter alguma vantagem, por invadirmos a privacidade ou o espaço do outro, por sermos cruéis, por perpetuarmos estigmas, por expormos, por não sermos responsáveis por nossas atitudes, por não nos importarmos o suficiente. Estejamos atentos.

 

BÔNUS: Para mim, a série foi mais uma forma de lidar com muita coisa que acontece aqui dentro. Esta é a primeira vez que falo tão aberta e tão publicamente sobre o bullying que sofri. Obrigado por lerem até aqui.

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Dalilas

(poesia dedicada a Samuel Sanção)
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De onde nasce a arte?
Do artista inquieto,
Da ciência ou de Marte?
Pode ser de um bom projeto,
Ser criada, parte a parte.
De artesão ou de arquiteto.

Mas por que essa pergunta?
Quando o artista se questiona,
Muitas vezes ele assunta
Se a inspiração é a dona,
A cola que une e que junta
E faz o belo vir à tona.

Se a fonte está na mente
Ou se está no coração,
Onde nasce essa semente?
Perguntam muitos: em vão.
Cada artista e o que sente,
É privada imensidão.

Há as Dalilas, ainda,
Sempre ali, de prontidão,
Onde o escuro não se finda,
Procurando seu Sansão,
Pra lhe dar a boa vinda
E sufocar a criação.

Cabelos ou não ao vento,
Pro artista, pouco importa,
Fala mais alto o talento:
É ele quem abre a porta,
Quem acalenta o relento,
Quem a alma desentorta.

Um retrato, um desempenho,
Uma linha que floresce,
Expressão que franze o cenho,
Um pincel que obedece,
Faz nascer o bom desenho
Que o fã do Sansão conhece.

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Fotografia mal feita

(poesia dedicada a Duillys Chaves)

Na vida daquela lente
Bastava um simples momento.
O flash era o instante inocente
Que interromperia o vento.

Em meio ao silêncio das ramas,
Sem nenhum tipo de alarde,
Surge um furacão de chamas
Das asas de um Charizard.

Sobre ele um menino,
Assustado e taciturno.
Um palpite pro destino?
Talvez os anéis de Saturno.

A sorte estava lançada,
Foi ela quem viu primeiro.
A lente jogou, encantada,
Seus dados no tabuleiro.

O vento era forte e intenso,
Ela, calma e resistente.
O momento podia ser tenso,
Mas não dava medo na lente.

Acontece que a lente,
Mesmo brava, era imperfeita,
Sem captar o ar quente,
Revelou uma foto mal feita.

Sem a alma do menino,
Sem humor e sem ternura.
Sem nem mesmo o destino
Da grandiosa aventura.

PS: Essa poesia faz parte de uma série que farei esse ano, em virtude de uma promessa que fiz no Facebook. Prometi 12 peças de arte para as 12 primeiras pessoas que participassem da “corrente”. Ainda não completaram as 12 pessoas, então se você também quiser alguns escritos meus dedicados a você, basta participar do post clicando aqui.

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