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Memórias de magia

(poesia dedicada a Martha Lohse).

Projeto escrito pra você.

Muitos anos se passaram
Desde aquela sexta-feira
Em que os dois se encontraram:
A bruxa e o caveira.

Na escola de magia,
Eram sempre aqueles dois
Quando tudo acontecia
E não ficava pra depois.

Foram tantos personagens,
Tanta história ali vivida,
Que evocaram as imagens
Como ponto de partida.

Ela não era criança,
Não se achava, pelo menos.
No seu rosto, a lembrança
De camisas – as de vênus.

Ele achava esquisito,
Não acreditava mais,
Mas, ao soar o apito,
No rosto tinha animais.

Se a pedida era um bom rock
Dos que todo mundo gosta,
Decidiram, com um toque,
Firmar juntos uma aposta.

Cantariam, em dueto,
Como na adolescência.
Ou em trio. Ou em quarteto.
Despertaram consciência

De que corpo não tem nexo,
Nem a voz e o coração.
Como um só, ele é complexo,
Pensamento e sensação.

Acabou tudo assim,
Na mais plena comunhão,
Dos que podem dizer sim,
Mas que sabem dizer não.

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Cicatriz

(poesia dedicada a Bernardo Leal)
Projeto escrito pra você.

Qual é a chave?, quer saber
O menino com seu pato,
Para não enlouquecer,
Ir para o próximo ato.

Qual é a chave que detém
Todas as informações?
Que o levarão além,
Transformando as intenções.

Qual é a chave mais precisa?
A que melhor se encaixa…
Grasna, de forma indecisa,
Pato de cabeça baixa.

Chave clara ou chave escura?
Pequenina ou gigantesca?
A que abre a fechadura
É singela ou é grotesca?

Sem resposta, o sofrimento
De que não tem mais lugar.
Mas bem naquele momento
Ocorreu o despertar.

Pato esperto, inteligente,
Projetou a fantasia:
De uma forma diferente,
A porta se abriria.

Bateu asas, voo curto,
Num rasante já sumiu.
O menino entrou em surto:
“Fiquei só!”, já concluiu.

De repente, um sopro intenso.
Porta aberta: era um fato.
O menino, todo tenso,
Procurava pelo pato.

Se deu conta, em um instante,
De que pato não havia.
Uma dor, já tão distante,
Latejava em companhia.

Se a ferida, ainda aberta,
Não deixava ser feliz.
O pato, sempre em alerta,
Transformou-se em cicatriz.

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Afetos-estações

(poesia dedicada a Gabriela David)

Projeto escrito pra você.

Na casinha de madeira batem forte os corações.
Sentimento de acolhida que desperta sensações.
Universo pequenino dos afetos-estações:
Dos invernos congelados aos vulcânicos verões.

Os afetos-primaveras são gentis e perfumados,
De sorrisos fascinantes: fortes, porém delicados.
Dos abraços mais sinceros e também mais precisados,
Dos momentos de silêncio revelando os bons pecados.

Os mais quentes dos afetos são perigosos também.
Chegam fortes, suntuosos, invadindo onde convém.
São potências criativas: levam tudo mais além.
É dos afetos-verões que os bons orgasmos vêm.

Na casinha de madeira também tem melancolia,
De introspecção serena ou de intensa ventania.
Solidões conectadas a qualquer hora do dia.
Para os afetos-outonos é daí que vem magia.

E se os afetos-invernos podem ser alucinantes
Por serem tão poderosos, paralisando os instantes,
Respirar é necessário, como nunca feito antes:
Inspirando os ares frios, porém tão reconfortantes.

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Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 2 – Ato 4

Chegando agora? Sugiro que leia os posts anteriores:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 2

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 2 – Ato 3

Agora sim, pode continuar… Só para lembrar, esse texto contém spoilers. 😉


Chegamos ao último ato. Tudo começa na sala de reuniões do Ministério da Magia, onde a ministra Hermione (Noma Dumezweni), do alto das famosas escadas, vai informar a verdade sobre a filha de Voldemort à comunidade bruxa. Com a revolta de McGonagall (Sandy McDade) sobre a ainda existência do vira-tempo, é bonito ver Harry (Jamie Parker), Gina (Poppy Miller), Rony (Paul Thornley) – incluindo sua pitada de humor à cena – e até Draco (James Howard) se unindo à ministra para assumirem, juntos, a responsabilidade pelo ocorrido.

Alvo (Sam Clemmett) e Escórpio (Anthony Boyle) estão, junto com Delfi (Esther Smith), presos no tempo, em 1981. Os meninos estão tentando descobrir uma forma de parar a garota. Quando finalmente descobrem onde estão e deduzem os planos de Delfi, eles vão a Godric’s Hollow. O vilarejo é representado em cena por cerca de cinco grandes portas dispostas lado a lado, que são as casas onde moram os pais de Harry e Batilda Bagshot (não creditada), além de uma janela no fundo do palco, que representa a igreja de St Jerome. Muito legal quando Batilda passa pelos garotos e Escórpio se dá conta de que estava diante de uma das maiores historiadoras bruxas. “Meu lado geek está pirando”, ele diz hahaha. Lílian (Annabel Baldwin) também passa por eles, com o bebê Harry em um carrinho, embalado pela manta que Alvo irá ganhar no futuro. No texto, Escórpio diz a Alvo que eles não podem ser vistos por Lílian, mas a peça ignora esse aviso e Alvo dá um inadvertido “Oi” à sua avó, que não irá ter nenhum impacto no futuro.

Harry, então, tem uma DR um pouco mais longa e inoportuna do que o necessário com o quadro de Dumbledore (Barry McCarthy), que continua enigmático mesmo depois de morto e enquadrado haha. Em seguida, uma nova DR com Draco até que este confessa que está de posse de um vira-tempo clandestino,  capaz de levá-los até seus filhos, que ele havia escondido até aquele momento porque a existência do vira-tempo poderia alimentar ainda mais os boatos de que Escórpio era o filho de Voldemort. O único problema é que eles não sabiam onde e em que período estavam os garotos.

Alvo e Escórpio, no passado, tentam uma alternativa para consertar de vez as coisas. Acho particularmente estranho Escórpio resistindo firmemente à possibilidade de contatarem alguém do passado, como Dumbledore, exatamente como ele fizera com Snape (Paul Bentall) quando se viu sozinho na outra realidade. “Consegui pedir ajuda porque eu estava numa realidade alternativa. Nós não estamos. Estamos no passado”, ele argumenta. Mas num universo em que a possibilidade de viajar no tempo é real, existe uma realidade real e outras realidades paralelas? Todas as realidades não seriam um campo de possibilidades e, portanto, realidades paralelas? Eu e meus problemas com viagem no tempo… Mas divago haha.

Entre as ideias maravilhosas dos garotos, como por exemplo esperar quarenta anos e entregar a mensagem pessoalmente aos seus pais, no futuro (AMO essa ideia hahaha), eles finalmente têm a sacada mais genial de suas vidas: o pó de pérola, ingrediente da poção de amor, reage com tinta de seminviso, que é invisível a olho nu. Então se eles escreverem uma mensagem com tinta de seminviso na manta de Lílian, ela irá reagir com a poção do amor que foi derrubada na manta por Alvo quarenta anos no futuro, quando ele briga com seu pai ao ganhar a coberta.

Aí, uma cena genial. No futuro, Harry procura pela manta de Lílian, como sempre faz no Halloween. Ele está com Gina. Os dois começam a perceber que a manta está com uma espécie de mensagem. Então, entram em cena, Alvo e Escórpio. Passado e presente estão dialogando bem na nossa frente: enquanto os garotos estão escrevendo a mensagem, no passado, Harry e Gina a estão decifrando, no futuro. Todos sobre a cama de Alvo, numa coreografia cênica impressionante e genial.

Os adultos vão, então, ao encontro da dupla perdida no passado. Ao se encontrarem, todos se emocionam e se abraçam, o que rende uma ótima cena de constrangimento de Escórpio querendo abraçar seu pai, o que percebemos que eles não costumam fazer, mas Draco consente. Eles decidem ir para a Igreja de St Jerome esperar por Delfi. Na igreja, Gina aconselha Harry sobre sua relação com Alvo, enquanto o grupo decide transfigurar Harry em Voldemort (Paul Bentall) para atrair Delfi como isca. A transfiguração também é impressionante, como o efeito da poção polissuco do primeiro ato. O plano funciona, e logo Delfi entra em cena. A garota conta toda sua história (que é quando nós, o público, ficamos sabendo que ela é filha do lorde das trevas com Belatriz Lestrange – AI meu coração). Ela fala ofidioglossia e voa facilmente sobre o palco para provar ao “pai” suas habilidades. Obviamente, o vôo de Delfi é espetacular, não dá pra ver nenhuma estrutura presa à atriz, parece que ela está realmente voando.

Quando Delfi percebe a farsa, começa a sequência da batalha entre ela e Harry, já em sua verdadeira forma. Mais feitiços e partituras corporais que criam uma partitura cênica perfeita. Alvo liberta todos, que haviam sido presos por Delfi na igreja, para que, juntos, possam derrotar a poderosa filha de Voldemort. Quando ela é finalmente sobrepujada, após ser atacada por todos ao mesmo tempo, Hermione a amarra. Ela pede para ser assassinada e Harry diz não poder atender ao pedido, mostrando mais uma vez de que não vale a pena igualar-se aos bruxos das trevas. Quando o verdadeiro Voldemort se aproxima, eles levitam a garota para fora do palco, fazendo-a voar por muitos metros (lembremos que o pé direito do teatro é realmente enorme).

Voldemort passa pelo palco e anda no meio da plateia, ali, pertinho da gente, rumo à casa dos Potter. Ele dá medo mesmo haha. Então, numa cena fortíssima, embora não seja vista diretamente por nós, Harry assiste Voldemort matar seus pais. Como na cena da tarefa do dragão, os personagens se dispõem no proscênio, olhando para o horizonte, e acompanhamos o assassinato dos Potter pelos diálogos em off de Lílian e Voldemort e pelas reações dos atores em cena. Ao contrário da cena do Torneio, que me frustrou um pouco, nessa cena a utilização do recurso funcionou perfeitamente. Sentir a morte de Lílian se aproximando, ouvir seus gritos e o silêncio que se segue é de arrepiar qualquer um que esteja acompanhando.

Depois do impacto, vemos Hagrid (Chris Jarman) buscar o bebê Harry após o assassinato de seus pais. Alvo e Escórpio voltam para a rotina, e vemos que infelizmente Escórpio convidou Rosa (Cherrelle Skeete) para sair e a menina aceitou, acabando com a felicidade dos fãs #Scorbus. Finalmente, temos uma última cena entre Harry e Alvo, que marca o entendimento definitivo entre pai e filho, após Harry mostrar a Alvo como os dois são parecidos – muito mais do que Harry se parece com Tiago Sirius (Jack North). Destaque para Harry revelando que tem medo de pombos haha. Harry leva, então, Alvo ao túmulo de Cedrico (Jack North) e diz que ir até lá o faz bem, aconselhando o filho a fazer o mesmo e ir visitar ocasionalmente o túmulo de Craig (Jeremy Ang Jones). O garoto consente e os dois finalizam reparando em como o dia está bonito.

FIM.

Os atores entram em cena para os efusivos aplausos. Me chamou muita atenção o fato de que Annabel Baldwin entrou caracterizada de Murta Que Geme para os agradecimentos – a cena da atriz como Murta ocorreu no dia anterior, não houve nenhuma cena da Murta no segundo dia de espetáculo, e, mesmo assim, ela se caracterizou completamente, apenas para agradecer o público.

E infelizmente as cortinas fecharam.

Espero que tenham gostado dos reviews, deram um bocado de trabalho! haha. Ressalto aqui que as fotos não são de minha autoria – é proibido fotografar durante o espetáculo. Todas foram encontradas em pesquisas realizadas na internet.

 

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Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 2 – Ato 3

Chegando agora? Sugiro que leia os posts anteriores:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 2

Agora sim, pode continuar… Só para lembrar, esse texto contém spoilers. 😉


Chegamos para assistir à segunda parte do espetáculo, e qual não foi nossa surpresa quando simplesmente a decoração interna do Palace Theatre estava mudada! As bandeiras da Hogwarts de Voldemort estavam pelos salões e, é claro, no palco. Era Dia de Voldemort! Aliás, preciso comentar o quanto achei inteligente – e, aqui, o mérito é do texto da peça também – finalizar a primeira parte com a cena no lago. Assim, é claro, dá tempo de secar toda a água que encharca o palco entre uma parte e outra.

Começamos na sala de Umbridge (Helena Lymbery), onde a agora diretora questiona Escórpio (Anthony Boyle) sobre sua mudança de comportamento. Uma das coisas divertidas dessa volta no tempo é Escórpio se dando conta da nova pessoa que é. Ele agora é atlético, não gosta de deveres de casa e tem seguidores por toda a escola: o supergeek agora é popular, chamado de Rei Escorpião pelos colegas. Boyle valoriza demais essas descobertas com sua interpretação, divertindo-se e divertindo-nos com cada novidade, apesar do clima tenso.

Existe, nesse período, um cumprimento característico, a la Heil Hitler, que todos repetem com um movimento bem coreografado que Escórpio custa a aprender: “Por Voldemort e Valor”. Se, por um lado, Escórpio descobre coisas divertidas, por outro descobre que há trouxas gritando presos nas masmorras de Hogwarts, e que aquilo tinha sido ideia sua. O efeito sonoro dos gritos é bem real, inclusive. Depois, uma cena emocionante entre Escórpio e seu pai, Draco (James Howard), em que o menino fica assustado com o que seu pai se tornou, mas conseguimos, através do resgate da memória da mãe de Escórpio, ver que ainda há luz nesse Draco sombrio.

Escórpio vai, então, à biblioteca, onde um aluno, Craig Bowker Jr (Jeremy Ang Jones), diz que ainda não conseguiu fazer os deveres para ele porque Snape (Paul Bentall) havia pegado pesado com os trabalhos. A menção do nome do professor faz Escórpio ter uma ideia que o leva diretamente à sala de aula de Poções. Ali está Snape, de costas para o público, escrevendo em seu quadro-negro até questionar, com a conhecida altivez do personagem, porque Escórpio havia entrado ali sem bater à porta. Nesse universo paralelo, em que Voldemort (curiosamente também interpretado por Paul Bentall) venceu a guerra de Hogwarts, Snape nunca morreu. Eu estava ansiosíssimo para ver meu personagem preferido da série retornar, mesmo que por alguns instantes. E Bentall está muito bem no papel, apesar do enorme desafio de “substituir” Alan Rickman.

Depois da polêmica famosa discussão em que Escórpio convence Snape de que veio do futuro, o professor o leva para encontrar Hermione (Noma Dumezweni) e Rony (Paul Thornley). O roteiro da peça diz que o professor deveria abrir um alçapão para fazer isso, mas o que vemos no palco é bem mais legal. Snape faz um contorno com a varinha no quadro-negro. Este contorno se ilumina e revela uma passagem secreta, por onde os personagens entram. Na sala de campanha, Hermione e Rony revelam são os únicos membros restantes da Armada de Dumbledore, e que eles agora vivem escondidos. Novamente, eles se surpreendem divertidamente quando descobrem que, no universo paralelo, são casados. Snape continua o mesmo: implica com Hermione, dizendo que ela era uma aluna de medíocre a razoável e, ao deduzir que está morto nessa realidade alternativa, se dispõe a se sacrificar (novamente) pelo mundo bruxo, é muito amor de ver em cena. “Às vezes os custos existem para serem suportados”, ele diz. ❤

O trio e Escórpio voltam no tempo para consertar o erro da primeira tarefa do Torneio Tribruxo e, ao retornarem, acabam ficando expostos demais. Dementadores ressurgem sobrevoando o palco. Rony e Hermione decidem se entregar aos dementadores para darem mais tempo a Escórpio e Snape. Antes disso, eles falam brevemente sobre o futuro alternativo, em que têm filhos, e se beijam. Os dementadores vão ao encontro deles. A cena é impressionante. Um dementador de cada lado do palco envolve cada personagem num abraço e sobrevoa o palco com sua vítima. Rony e Hermione, percebam, saem voando nos braços de dois dementadores. Um efeito de luz e som intenso, bem como a movimentação dos dementadores, nos faz perceber que o beijo do dementador aconteceu. As criaturas suspendem-se para fora do palco, por cima. Hermione e Rony desapareceram.

Snape e Escórpio, então, enfrentam os dementadores. Snape sugere que Escórpio pense em quem como sua memória mais feliz para produzir um patrono? Em quem? Ora bolas, em Alvo (Sam Clemmett), é claro! Haha. Brincadeirinha à parte, os dois dão de cara com Umbridge e Snape não tem saída se não se entregar aos dementadores, dando uma última chance a Escórpio. O dementador vai dar o beijo em Snape. Com ele, a cena é um pouco distinta. O dementador não sobrevoa com sua vítima, mas o subjuga no chão, dando o beijo, com o mesmo efeito sonoro e luminoso visto antes. Depois ele sobrevoa para fora do palco. Snape sumiu. Possivelmente, deixou o palco através de um alçapão. Mas o efeito do beijo do dementador não foi menos impressionante.

Escórpio ressurge, então, do tanque que representa o grande lago. Logo atrás dele, Alvo. O amigo voltou a existir. Boyle novamente nos brinda com uma grande e muito divertida interpretação, ao comemorar que o plano original dos garotos deu errado, sem que Alvo entenda nada. A seguir, o encontro dos pais com os filhos na sala de McGonagall (Sandy McDade), antes de Alvo e Harry (Jamie Parker) terem uma conversa bonita no dormitório da Sonserina, começando a reaproximação entre pai e filho. Algumas cenas depois, Delfi (Esther Smith) encontra os meninos para, teoricamente, destruir o vira-tempo.

O figurino de Delfi, bem como a nova interpretação de Smith, já mostram a mudança da personagem, com o figurino inclusive incorporando uma enorme abertura traseira para que possamos ver a tatuagem de Agoureiro que, posteriormente, será essencial para o desfecho, revelando a verdadeira identidade da garota. Bom, Delfi se volta contra os meninos e usa magia (na nossa frente, de novo) para prender os braços de Alvo e Escórpio com cordas mágicas, que aparecem do nada. Enquanto Delfi se revela a filha de Voldemort (Sim. Não falaremos sobre isto. Hahaha. Ela é filha dele com Belatriz, aceitemos. Ou não. Mas enfim…), Rony revela que havia visto Alvo com a sobrinha de Amos Diggory (Barry McCarthy) e os adultos vão atrás das crianças novamente, quando Amos revela a Harry e Draco que nunca teve uma sobrinha.

Delfi leva os meninos para o campo de quadribol a fim de retornar à terceira tarefa do Torneio Tribruxo, quando vemos, pela primeira vez na peça, as maldições imperdoáveis serem utilizadas. Delfi tortura Escórpio com a maldição Crucio, sem muitos efeitos visuais – a tortura é representada corporalmente por Boyle. Quando o jovem aluno Craig Bowker Jr aparece procurando Alvo e Escórpio, Delfi lança, sem piedade, um Avada Kedavra no garoto, e uma chama verde sai de sua varinha na direção dele, que cai, morto. Impactante.

Vamos, então, para o labirinto. É um labirinto real, uma grande estrutura cênica sobre um palco giratório, o que fica genial, porque os atores vão se perdendo e se encontrando à medida que o palco gira e o labirinto se movimenta, dando mesmo a sensação de movimentação por entre os blocos de paredes. Alvo e Escórpio convencem Cedrico (Jack North) a libertá-los das cordas como parte da tarefa, porque eles não têm mais varinhas (Delfi as quebrou). Após alguns embates, Delfi e os meninos voltam novamente no tempo. Delfi quebra o vira-tempo com uma magia e abandona os meninos.

Na cena final, Harry, Rony, Draco e Gina (Poppy Miller) tentam descobrir o que está havendo, até que percebem estar diante de uma profecia. Quando Harry, através de ofidioglossia, libera a profecia, todas as paredes do teatro (sim!) se enchem de mensagens escritas em luz fluorescente. Você é pego de surpresa, de repente o teatro está todo iluminado com mensagens mágicas. É lindo! Eles leem a profecia. Agora todos sabem que Voldemort, de fato, teve uma filha. Hora do intervalo. O desfecho final está chegando!

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Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 2

 

Se está chegando agora, sugiro que leia os posts anteriores:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

Agora sim, pode continuar… Só para lembrar, esse texto contém spoilers. 😉


Começamos o segundo ato em um novo sonho de Harry (Jamie Parker). Em cena, tia Petúnia (Helena Lymbery) e o jovem Harry (Jabez Cheeseman). Ele está no armário sob a ~ escada ~. A mesma escada é utilizada no quarto do Harry adulto, no salão de reuniões do ministério da magia, no escritório de Hermione e dentro de Hogwarts. Como disse no post anterior, um objeto cênico (dois, na realidade, pois há um par de escadas) poderoso para o espetáculo, e extremamente funcional.

Assim que Harry acorda do pesadelo e tem um diálogo com Gina (Poppy Miller), vamos para a sala da diretora McGonagall (Sandy McDade), em Hogwarts, onde ela e o casal estão preocupados com o pesadelo de Harry. No fundo da sala, uma lareira, de onde irrompe Hermione (Noma Dumezweni), que foi até lá usando pó de flu. Provavelmente, tem um escorregador atrás da lareira, porque toda vez que alguém a utiliza chega deslizando como quem desce de um escorregador. Mais uma saída genial da peça para a utilização de um recurso mágico tão conhecido dos fãs.

Alvo (Sam Clemmett) e Delfi (Esther Smith) estão na orla da floresta proibida treinando magia. Especificamente, o feitiço Expelliarmus. Quando Alvo consegue desarmar Delfi com o feitiço, a varinha da menina some e aparecem duas varinhas nas mãos de Alvo. Mais truques mágicos acontecendo na nossa frente. Este, inclusive, acontece algumas vezes em seguida. Nessa cena, uma sequência engraçadinha dá a entender que pode estar havendo um interesse de Alvo por Delfi (que é alguns anos mais velha), ao que Escórpio (Anthony Boyle) reage com ciúmes. Mais um indício da grande amizade entre os dois, ou algo mais? Divago…

Eis que surgem, na floresta proibida, Harry e o centauro Agouro (Nuno Silva) – ele é português, não brasileiro, como o nome poderia sugerir rs –, com uma caracterização impressionante. O único problema é que o figurino é tão gigantesco que o centauro não consegue se movimentar livremente, como um cavalo normal faria. Para sair de cena, Agouro precisa andar para trás, tipo de ré, o que eu achei um pouquinho estranho. Mas o figurino não deixa de ser maravilhoso, só achei pouco funcional. Eu já interpretei um centauro no teatro (muito mais modesto, é claro) e sei bem como é difícil se adaptar a um corpo com quatro patas haha.

Alvo e Escórpio, então, voltam no tempo pela primeira vez. Os inúmeros relógios do cenário começam a girar para trás rapidamente, até que um efeito incrível, que imagino que seja de iluminação, faz parecer que o palco sofreu um impacto. Para que vocês consigam visualizar sem ter assistido à peça, é como se o palco fosse de água límpida e você jogasse uma pedra nele. Há um balanço, um impacto, o efeito visual mais impressionante da peça para mim. Esse mesmo efeito ocorre todas as vezes que os personagens voltam no tempo.

Aí estamos na mesma orla da floresta proibida, porém em 1994, durante o Torneio Tribruxo. Ludo Bagman (não creditado) anuncia o torneio em off enquanto a multidão de figurantes se concentra no centro do palco, olhando para a plateia, como se estivessem assistindo ao começo da primeira tarefa, que aconteceria fora da quarta parede. A jovem Hermione (Cherrelle Skeete, que também interpreta Rosa Granger-Weasley) está no meio da multidão, torcendo por seu amigo Harry. A narração da tarefa dos dragões acontece toda em off, de modo que só acompanhamos o embate entre Cedrico e seu dragão através da narração de Bagman e das reações dos estudantes que estão em cena, muito bem coreografadas. Confesso que a essa altura, depois de já ter visto tantos “milagres” acontecerem, eu estava esperando pelo dragão real e uma supercena de ação, e fiquei um pouquinho decepcionado com a forma como a cena foi feita (eu e minhas decepções com o Torneio Tribruxo haha). Mas funcionou como foi, jogou a cena pra imaginação dos espectadores.

Então retornamos ao presente, e estamos na ala hospitalar de Hogwarts. Dumbledore (Barry McCarthy) aparece em cena, faz alguns movimentos com sua varinha, e desce a ao palco a moldura do quadro de onde o diretor conversará com Harry. Essa cena é muito bonita, e destaca o excelente efeito de iluminação que esconde completamente a parte do corpo de Dumbledore que fica fora do enquadramento da moldura. É como se estivéssemos, de fato, diante de um quadro, com uma pessoa pintada da cintura para cima.

Começam então as revelações sobre as primeiras confusões geradas pelo retorno no tempo. Alvo é da Grifinória, e não mais da Sonserina, Rony (Paul Thornley) é casado com Padma e eles têm um filho, Panju. Rosa não existe mais. Destaque para Rony dizendo seu bordão “Bloody Hell!” (“Maldição!”) quando Alvo pergunta a ele, depois de algumas outras confusões, quem é Panju. Eu estava esperando por isso! Haha. Muito legal ver o constrangimento de Rony e Hermione, em todas as realidades alternativas, ao ouvirem que, no tempo original, são casados e têm uma filha. Dumezweni e Thornley, mais uma vez, arrasam.

Quando Harry pede a McGonagall que ela cuide para que Alvo e Escórpio não se aproximem mais, gosto de um diálogo da peça em que ela diz que foi aconselhada, ao assumir a direção, a não confundir o retrato com a pessoa, quando Harry cita uma conversa com Dumbledore. “Retratos não representam nem metade dos retratados”, ela diz, com seu sotaque afetado. Algo que não havia sido discutido na saga original e que eu gostei bastante de refletir a respeito. Mas divago de novo…

Depois, vemos uma amargurada e carrancuda Hermione como professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, tirando pontos dos alunos um instante após o outro. Preciso falar mais uma vez: Noma Dumezweni, que atriz! <3. Logo depois dessa sequência, uma das mais românticas bonitas da peça: Alvo e Escórpio, que agora estão proibidos de conversar, sobem e descem pelas escadas de Hogwarts, que se movem numa coreografia linda, fazendo com que os pombinhos meninos se afastem sempre que poderiam se aproximar.

Draco (James Howard) vai, então, até a casa dos Potter brigar com Harry porque Escórpio está miserável após a separação forçada entre ele e Alvo. No meio do desentendimento, uma batalha de varinhas em cena! Os feitiços são lançados e, com eles, os efeitos, incríveis: os personagens são suspensos no ar, dão cambalhotas, objetos são lançados, enfim, pura magia. A coreografia dessa cena é maravilhosa!

Depois, uma cena entre Delfi e Escórpio que só faz ressaltar o romance a amizade entre ele e Alvo, com a garota dizendo o quanto Alvo sente falta do amigo e finalizando emblematicamente: “Vocês dois… pertencem um ao outro” (foi a Delfi que disse, eu juro!). Mais uma sacada genial na volta para a casa de Harry: Draco pede desculpas a Gina pela sua cozinha e ela responde que a cozinha não é dela, que é Harry quem cozinha mais por ali. Mais um pontinho pro feminismo, né? Isso sem falar em todo o papo de Draco sobre como ele tinha inveja da amizade entre Harry, Rony e Hermione na escola. Muitos criticaram essa confissão, mas acho que a peça soube onde encaixá-la e eu, particularmente, acho bonito Draco se humanizando com o passar dos anos.

A seguir, temos uma DR cena de Alvo com Escórpio, em que a professora McGonagall tenta procurá-los ao vê-los juntos no mapa do maroto, mas os garotos escondem-se sob a capa de invisibilidade. O efeito aqui é relativamente simples: os garotos saem de cena, e alguns objetos/móveis se movem enquanto eles “passam invisíveis” por eles. Algumas cenas de transição depois, incluindo um encontro maravilhoso entre Rony e Hermione, não casados, conversando sobre a possibilidade, levantada por Alvo.

Vamos, então, para o banheiro feminino no primeiro andar, lar da Murta Que Geme (Annabel Baldwin, que também interpreta Lílian Potter), de onde Alvo e Escórpio pretendem voltar no tempo mais uma vez para consertar as coisas. Além da interpretação divertidíssima de Baldwin, a cena merece destaque pela forma como é executada. Sobre a pia que serve de entrada para a câmara secreta, uma estrutura circular, lembrando (ou talvez seja) uma lira circense. Essa estrutura é muito utilizada por Baldwin, que gira, se apoia, numa partitura corporal que me remeteu mesmo a algumas movimentações circenses. Uma cena bonita e divertida de se assistir.

Os garotos voltam no tempo e reaparecem no ~ lago ~ do Torneio Tribruxo. Sim, no lago. Uma estrutura frontal desce sobre o palco, e mergulhamos com os atores nesse cenário fantástico. Clemmett e Boyle estão suspensos, movimentando-se como se seus personagens estivessem, de fato, nadando. Alguns efeitos bem rápidos simulam a passagem dos outros competidores, até que Cedrico (Jack North) surge e os meninos utilizam nele o feitiço de ingurgitamento. Cedrico começa a inflar como um balão e sai de cena sendo “impulsionado” para cima devido ao feitiço.

Voltamos ao presente, o cenário do lago desaparece e, de um tanque real, até então oculto, no proscênio, emerge Escórpio, encharcado. Ele acabou de sair do lago. Genial. Alvo não retorna. Quem tira o garoto do lago é a agora diretora Umbridge (Helena Lymbery). Estamos na Hogwarts sombria. Para fechar a primeira parte com chave de ouro, emergem, das laterais do palco, dois dementadores. São enormes, idênticos aos dementadores dos filmes. Eles flutuam sobre a diretora e Escórpio. Quando estamos começando a nos recuperar do impacto, um novo dementador surge, sobrevoando a plateia. Ele passa por todos nós até chegar ao palco. Escórpio fica sabendo que está sendo comemorado o Dia de Voldemort. As cortinas se fecham. Fim da primeira parte.

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Review – Harry Potter and the Cursed Child – Parte 1 – Ato 1

Chegou aqui agora? Sugiro começar por aqui:

Review – Harry Potter and the Cursed Child – Para começar…

Já leu o texto anterior? Agora sim, vamos seguir com o review.


A peça começa na estação King’s Cross, velha conhecida dos fãs de Harry Potter. Várias malas estão espalhadas pelo cenário, malas essas que vão ter muita utilidade cênica durante todo o espetáculo. Primeiro elogio à peça: a utilização dos objetos cênicos e cenários é inteligentíssima e facilita bastante as coisas do ponto de vista técnico. Do alto do enorme palco, um relógio transparente, de onde vem a “luz da rua”. A iluminação do espetáculo é outro ponto alto: os inúmeros canhões de luz colocados cirurgicamente em cada ponto necessário ajudam a peça a acontecer em todos os lugares, do palco à plateia às paredes do teatro.

Primeiro desafio do espetáculo: o envelhecimento dos personagens jovens. Alguns anos se passam durante a história, e, enquanto para Harry (Jamie Parker), Ron (Paul Thornley) e Hermione (Noma Dumezweni) essa passagem é menos problemática, porque os personagens já são adultos, Alvo (Sam Clemmett) e Escórpio (Anthony Boyle) interpretam os mesmos personagens dos 11 aos 14 anos, período em que as mudanças físicas e emocionais costumam ser mais intensas. Fisicamente, seria muito complicado incorporar essas mudanças. A transformação ocorre na postura dos personagens, nos seus diálogos, na sua forma de interpretar. Todos os atores jovens (não só Clemmett e Boyle) fazem essa passagem de forma bem natural e convincente. O que poderia ser um grande desafio não gera nenhum incômodo.

Clemmett dá vida a um Alvo enérgico, tenso, cheio de inseguranças de um pré-adolescente, enquanto Tiago Sirius (Jack North), seu irmão mais velho, tem a vibração descontraída e confiante que costumávamos ver nos gêmeos Weasley. Gina (Poppy Miller) tem um quê de Molly, no carinho afetuoso com Alvo, na forma como se porta como mãezona, mas que sabe se impor. É bonito ver que Gina pode ter se transformado em uma versão moderna de sua mãe, personagem que tanto cativou os fãs da série e que certamente seria um exemplo para a filha seguir. Parker, por sua vez, dá vida a um Harry tenso como seu filho do meio – algo que depois de algum tempo faz sentido, mas isso é assunto para outro post –, meio desajeitado na função de pai. Muitas críticas ao roteiro da peça recaem sobre o pai que Harry se tornou. Pessoalmente, discordo um pouco dessas críticas e acho que estão mais ligadas à expectativa que tínhamos para o desenvolvimento do Harry do que de fato para alguma implausibilidade. Por que mesmo Harry não poderia se tornar um “mau” pai? Divagação à parte, o fato é que Jamie Parker, como a grande maioria do elenco, está muito bem no papel.

De King’s Cross, passamos à plataforma 9 ½, onde somos apresentados a Rony, Hermione e sua filha Rosa Granger-Weasley (Cherrelle Skeete). A peça transforma Rony em um homem que mantém um certo humor bobão de quando era adolescente, algo que Thornley consegue imprimir muito bem. Dumezweni está soberba, impecável, uma das melhores intérpretes do espetáculo, como a imponente Hermione, que passa por muitas transformações emocionais durante a peça. Preciso comentar o quanto amo o fato de terem escolhido dar vida a uma Hermione preta, poderosa, empoderada, ministra da magia. Ponto pro espetáculo. Já Skeete interpreta uma versão ainda mais insuportável da pequena Hermione, estridente, mandona e cheia de certezas. A relação entre Hermione e Rony é linda de assistir. Eles se completam. Nessa cena na plataforma, amo quando Rony faz uma brincadeira besta e é recriminado por Rosa. Hermione, então, diz: “O que você chama de bobo, ele chama de glorioso… algo entre as duas coisas”. Muito amor! É nessa cena, também, que vemos Alvo repetir seu pai, morrendo de medo de ser colocado na Sonserina. Só que o destino de Alvo foi um pouco diferente do de seu pai. Neville Longbottom também é lembrado nessa cena, em uma única menção honrosa no espetáculo, quando Hermione pede a Rosa que transmita “carinho” ao velho amigo, ao que a menina responde rapidamente: “Mãe, não posso transmitir carinho a um professor!”. Neville, para quem não se lembra, tornou-se professor de Herbologia em Hogwarts. Por onde será que anda a professora Sprout? =P

Saímos da plataforma 9 ½ para viajarmos no famoso Expresso de Hogwarts. Eu estava curiosíssimo para saber como o enorme trem e seus vagões seriam representados no palco. Lembram-se das malas? Pois é. Agora elas tomam as formas e contornos dos vagões. Colocadas em fileiras ao longo do palco, juntamente com a fumaça e os efeitos sonoros, simulam perfeitamente o trem em movimento. Alvo e Rosa têm um pequeno momento caminhando pelo trem até surge o melhor personagem de toda a peça: Escórpio. Boyle é fenomenal no papel. Junto com Dumezweni, um dos melhores. Desengonçado, sem jeito, ansioso, geek e extremamente carismático. Exatamente como o personagem demanda. Você vai com a cara do Escórpio desde o primeiro instante, justamente o oposto do que ocorre quando conhecemos seu pai na saga original. Quando ele canta “sweets they always help you make friends” (“os doces sempre ajudam a fazer amigos”) para Alvo e Rosa, você já percebe o enorme potencial cômico do intérprete, que usa e abusa do carisma de seu personagem para explorar essa faceta cômica. Um dos primeiros truques mágicos utilizados na peça acontece nessa cena: quando Escórpio come alguns doces, eles o fazem soltar fumaça pelas orelhas. O efeito cênico é bem interessante e divertido, e a sincronicidade é perfeita.

Do Expresso, vamos a Hogwarts. O avançar dos anos é encenado de forma bastante dinâmica. Como em estalos, com uma mudança de cenário ou com uma simples movimentação ou comentário de algum personagem, você percebe que mais um ano se passou. Nessa passagem, é preciso destacar a presença do Chapéu Seletor (Chris Jarman). Na peça, um ator com um chapéu coco faz as vezes do personagem. A seleção ocorre da seguinte forma: Jarman, com presença de palco e imponência marcantes, chama por um dos alunos. O aluno se aproxima, Jarman tira o chapéu coco de sua cabeça e o coloca sobre a cabeça do estudante. Com uma partitura cênica bem marcada, ele ergue o chapéu por alguns instantes, aproxima-o novamente da cabeça do estudante e, então, anuncia firmemente a casa à qual aquele estudante pertence, quando dezenas de estudantes figurantes no fundo do palco comemoram o anúncio. Boa parte do mérito dessa encenação se deve à força cênica de Chris Jarman. O ator é uma figura cênica fortíssima. Além do Chapéu Seletor, ele interpreta Hagrid e faz contrarregragem em muitas cenas com a mesma precisão que garante que suas aparições sejam tão intensas quanto seus momentos de contrarregragem sejam discretos. Um grande acerto.

Na aula de vôo com Madame Hooch (Helena Lymbery), somos transportados pela primeira vez aos filmes de Harry Potter. Lá estão os primeiranistas olhando ansiosos para suas vassouras e gritando “Up!” (“Suba!”). Outra vez, a magia acontece na sua frente: as vassouras dos personagens vão subindo para suas mãos, aparentemente sem nem um fio que as ergam do chão.

Durante essas passagens de anos, em uma nova cena na estação King’s Cross, aparece, pela primeira vez, Draco Malfoy (James Howard). Como eu disse no post anterior, o intérprete original de Malfoy é Alex Price, porém, nos dias em que eu assisti, era Howard que estava no papel e o desempenhou muito bem, diga-se de passagem. Fiquei até surpreso quando vi que ele era substituto. Ingenuidade minha, claro. É óbvio que os substitutos são muito bem treinados para desempenharem os papéis caso seja necessário. A primeira interação entre Harry e Draco nos mostra como evoluiu a relação entre esses personagens desde que saíram de Hogwarts. Draco herdou de seu pai uma certa arrogância e irritação quando é contrariado, mas percebemos que os antigos inimigos tratam-se com respeito e alguma cordialidade.

Anthony Boyle se mostra novamente maravilhoso interpretando a relação de Escórpio com Rosa, na cena em que ela dá um fora nele na estação quando ele tenta cumprimentá-la e ele responde: “Ela é comovente”. Aqui, uma ressalva: muitas pessoas que conheço cogitaram um romance entre Escórpio e Alvo ao lerem a peça. Eles têm muitos momentos fofos, é dito inúmeras vezes que são as pessoas mais importantes um para o outro e teria sido completamente plausível se eles fossem gays. Teria sido tão genial como a Hermione preta, mas a peça não dá esse passo e investe na relação (engraçada, não podemos negar) entre a filha de Hermione e o filho de Malfoy.

Num rápido momento, ainda nessa passagem, somos introduzidos à professora McGonagall (Sandy McDade), o que me leva a uma observação importante. Os novos personagens, bem como os personagens antigos que, durante os filmes da franquia, eram jovens e, durante a peça, são adultos, estão livres de um “peso” específico. Interpretar personagens como McGonagall, Snape, Hagrid ou Dumbledore, já eternizados no cinema, respectivamente, por Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane e Richard Harris/Michael Gambon não é uma tarefa fácil. Gambon sofreu muitas críticas (algumas, com razão) ao substituir Harris no cinema após sua morte. Na peça, sofremos esse incômodo. A afetação proposta por McDade, inclusive em seu sotaque, para interpretar McGonagall, não me agradou. A personagem da peça não tem um terço da força da personagem do cinema.

Novamente na estação de King’s Cross, enquanto Alvo – agora no terceiro ano – e Harry têm uma pequena discussão, mais magia: Alvo aponta sua varinha para o formulário de Hogsmeade e lança o feitiço: “Incendio!”, ao que o pedaço de papel pega fogo diante dos nossos olhos. Simples, sutil, genial.

Quando essa passagem temporal finaliza, estamos no gabinete de Harry no ministério da magia. Uma pequena saleta com uma mesa cheia de papéis bagunçados. Hermione dá uma bronca em Harry pela bagunça em seu gabinete, e o que temos? Mais magia. Harry aponta a varinha para a pilha de papéis desorganizados e ela magicamente se organiza diante de nossos olhos, sem nenhum recurso técnico aparente. Chama-se, no cinema, esse recurso de “opacidade”. Para a peça, um recurso muito importante. Você não vê os truques acontecerem, a mágica parece estar, de fato, acontecendo ali, na sua frente. Acho legal, nessa cena, quando Hermione come caramelos num “ato de rebeldia” contra seus pais dentistas, que sempre a proibiram. Sempre é bom ver Hermione quebrando regras, haha. =D Mas, sério, acho que esse pequeno detalhe mostra, também, uma evolução da personagem, que talvez tenha se percebido um tanto “escrava” das regras e agora diz “a certa altura eu tinha de me rebelar”. Talvez eu esteja viajando, mas fiquei com essa sensação, rs.

Do ministério vamos à casa de Potter, onde aparece pela primeira vez o segundo objeto cênico que irá ser chave para a montagem de diversas cenas: a escada. Nessa cena, Alvo está sentado na escada ouvindo seu pai conversar com Amos Diggory (Barry McCarthy), mais um ator bem forte em seu papel. Outra personagem inserida nesta cena é a polêmica Delfi Diggory (Esther Smith), brilhantemente interpretada por uma atriz cheia de força cênica e carisma. Sério. Smith é impressionante como Delfi. Você sente vontade de ficar amigo dela assim que ela aparece em cena. Perfeito para o papel que ela interpreta.

A seguir, uma das cenas chaves para o desenvolvimento da peça: no quarto de Alvo, Harry dá a manta de Lílian para seu filho do meio, os dois discutem, Harry diz que às vezes não queria que Alvo fosse seu filho, e Alvo joga o cobertor longe, derrubando-o sobre a poção do amor que ele ganhara de Rony. Quem leu o texto sabe que essa cena é crucial por uma série de fatores. O mais impressionante aqui é a exatidão dos movimentos: a manta tem que cair sobre a poção, e só quem já fez teatro sabe quanto é difícil sincronizar um objeto que precisa ser lançado em um local específico. Assim que a manta derruba a poção, esta solta uma fumaça indicando que ficou impregnada no cobertor. Sabemos o porquê disso e a peça consegue mostrar esse momento tão fugaz, mas tão essencial, com muita clareza e precisão.

Depois disso, uma das cenas mais nostálgicas de toda a peça. Estamos no casebre sobre as rochas, dentro de um sonho de Harry. O jovem Harry (Jabez Cheeseman), Duda (Joshua Wyatt), tio Válter (Paul Bentall) e tia Petúnia (Helena Lymbery – a mesma intérprete da Madame Hooch) estão encolhidos atrás de uma cama, após ouvirmos um estrondo do alto da ~ escada ~. Da escada, desce Hagrid (Chris Jarman – que também interpreta, para lembrar, o Chapéu Seletor). Aqui temos uma linda cena que nos transporta diretamente ao filme Harry Potter e a Pedra Filosofal, quando o meio-gigante vai, finalmente, entregar a Harry a carta de admissão em Hogwarts. Com direito a espingarda entortada e bolo de aniversário amassado. Emocionante.

Após algumas cenas, estamos no Expresso de Hogwarts, quarto ano de Alvo e Escórpio, e uma passagem que eu gostaria de destacar, sobre a relação entre os meninos e deles com Rosa. Ao avistar Rosa, Escórpio elogia seu “cheiro”, o cheiro de uma mistura de flores vivas e… “pão fresco” (“Um lindo pão, um bom pão, um pão… o que tem de errado no pão”, ele vai se perguntar, após perceber que fizera a garota ir embora irritada). Após essa passagem engraçadinha, Alvo demonstra estar com muita saudade de Escórpio, eles se abraçam “com força” e “ficam abraçados por um tempo” (isso está nas rubricas da peça). Escórpio, desajeitado como sempre, pergunta: “Hmm. Já nos abraçamos antes? A gente se abraça?”, e a rubrica continua: “Os dois meninos ficam sem jeito e atrapalhados”. Em cena, é lindo ver isso acontecer. Boyle e Clemmett sabem passar exatamente esse constrangimento constante que seus personagens têm. E fica aí mais um indício que a teoria do shipper #Scorbus faz algum sentido.

Quando Alvo e Escórpio decidem que eles não irão mais para Hogwarts, eles decidem sair por onde? Pelo teto do Expresso de Hogwarts! Outro cenário que eu estava curiosíssimo para saber como seria montado. Novamente, as malas irão ajudar a compor uma espécie de plataforma sobre a qual os dois, juntamente com a Bruxa do Carrinho (Sandy McDade, que também interpreta Minerva McGonagall) fazem uma cena bem divertida, com mais magia, palco giratório, sonorização de externa e efeitos visuais para ajudar a nos transportar para o exterior de um trem em movimento. Mais uma curiosidade sobre o texto: muita gente fica indignada quando a Bruxa do Carrinho diz que ninguém que já tinha tentado fugir do trem havia conseguido, inclusive Sirius Black e os gêmeos Weasley, mas Alvo e Escórpio conseguem facilmente. Isso não me incomodou muito porque, na realidade, é apenas a frágil memória de uma senhora que nem sequer lembra mais seu nome (algo que eu, aliás, acho genial). Inclusive, ressaltando um ponto que eu tinha colocado alguns parágrafos atrás, McDade está incrível como a Bruxa do Carrinho, muito melhor do que sua leitura de McGonagall (ou talvez eu só esteja muito apegado à McGonagall original).

O salão de reuniões do ministério da magia é composto através de… ~ escadas ~. Hermione, a ministra, fica do alto da escada enquanto diversos bruxos e bruxas figurantes estão no patamar abaixo, ouvindo seus anúncios. Depois, temos uma cena superpoética no Lar St. Oswald para Bruxas e Bruxos Idosos, onde está internado Amos Diggory. Há coreografia, andadores ganhando vida, enfermeiros dançando. É a magia pela magia, sem propósito, só para passar o tempo daqueles velhinhos que se divertem. Lindo, lindo de ver. Aliás, esse foi um ponto que eu ainda não toquei: as passagens de cena e trocas de cenário, sempre muito bem executadas, envolvem muitas coreografias, muitas capas esvoaçantes, são puro entretenimento de alta qualidade entre uma cena e outra.

Passadas algumas cenas, estamos no porão em que Alvo, Escórpio e Delfi tomarão poção polissuco para se transformarem, respectivamente, em Rony, Harry e Hermione. A transformação no palco é GENIAL. Provavelmente por meio de alçapões, os atores se transformam uns nos outros sob suas vestes. Enquanto Esther Smith, por exemplo, implode para dentro de sua veste, Noma Dumezweni irrompe de dentro dela instantaneamente, passando de Delfi a Hermione em um passe de mágica. Não bastasse esse momento maravilhoso, quando eles se dirigem à cabine telefônica para irem ao ministério, suas capas são inteiramente sugadas para dentro do aparelho e eles simplesmente desaparecem, mais uma vez, diante dos nossos olhos.

Uma vez transfigurados, volto a destacar a boa interpretação do trio: Dumezweni, Jamie Parker e Paul Thornley estão, agora, na pele de Delfi, Escórpio e Alvo se passando por Hermione, Harry e Rony. E como fazem isso bem! Dá pra sentir a mudança sutil na interpretação deles, desde quando se surpreendem com a própria transformação, até depois, no ministério, querendo disfarçar sua adolescência na pele de adultos. Enquanto isso, no ministério, os ânimos entre o verdadeiro Harry e Malfoy vão se exaltando cada vez mais devido ao sumiço dos meninos. Nesse momento, uma das ações que mais me impressionaram em toda a peça. Delfi, Escórpio e Alvo (transfigurados) ouvem os verdadeiros Hermione e Harry se aproximando. Eles, então, saem por uma porta, no fundo esquerdo do palco. Depois de duas (exatamente) frases em off após a passagem pela porta, vemos Hermione e Harry chegando pela ponta direita da coxia. Ou seja, num espaço de aparentemente dois segundos, Noma Dumezweni e Jamie Parker passam do fundo esquerdo para a coxia direita do palco, uma caminhada que normalmente levaria pelo menos uns 20 segundos. Fiquei muito impressionado com isso e até agora não faço ideia de como foi feito.

Um destaque deve ser feito aqui para Paul Thornley (Alvo/Rony), que fica engraçadíssimo tentando despistar a verdadeira Hermione. Esse diálogo entre Alvo/Rony e Hermione é MARAVILHOSO: ALVO/RONY: “Vamos ter outro filho. Ou, se não outro filho, férias. Quero um filho ou férias e vou insistir nisso”. HERMIONE: “Um filho – OU – férias? Há dias que você passa dos limites, sabia disso?” hahaha.

Por fim, é no gabinete de Hermione que acontece a última cena do primeiro ato, e também uma das mais impressionantes. Na busca pelo vira-tempo escondido, Delfi, Alvo e Escórpio enfrentam a biblioteca de Hermione. A biblioteca engole os atores (que estão transfigurados) e os cospe de volta em suas versões originais, à medida que a cena vai se desenvolvendo uma verdadeira batalha contra os livros que engolem os personagens vai ganhando contorno até que, depois de desvendar todas as charadas propostas, eles encontram o vira-tempo. A partitura corporal dos atores, aqui, é fundamental para que a cena se passe como se passa. Seus corpos se dobram, esticam e são impulsionados contra uma pilha de livros de modo que parece que eles estão sendo mesmo sugados e cuspidos para dentro e para fora da estante. Vira-tempo em mãos, é hora do intervalo. E o ato 2 fica pra amanhã!

P.S.: Todas as fotos utilizadas neste post são fotos originais de divulgação do espetáculo. Não é permitido fotografar durante a peça e eu também não perderia minha experiência fotografando haha.

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