Arquivo da categoria: Conto

Ele e o homem do cafezinho

por Álvaro Dyogo e Gabriela David

Ele era um cara que não tinha muitos amigos. Não que ele soubesse. Enquanto ele se ocupava de suas coisas banais e tentava cultivar pequenos sonhos, tinha muita gente prestando atenção nele. Mas ele não fazia ideia. A questão é que ele tinha um senso de magnitude do universo muito apurado e por isso, sempre se sentia insignificante diante do todo. Mas não era assim que as pessoas o viam. Havia algo ali, beirando a superfície. Um poder latente prestes a despertar.

Nada foi planejado. Era uma terça-feira comum quando ele acordou cedo para pegar o pão fresquinho na sua padaria preferida, antes de começar a trabalhar. O que ele não esperava era ouvir aquele grito agudo vindo não se sabe de onde. Tudo o que ele percebeu era que cada pelo de seu corpo estava arrepiado. Olhou pros lados. Alguém mais tinha ouvido? Não era possível que só ele tivesse reparado. As pessoas estão anestesiadas a esse ponto?

Mas não havia nada de diferente e todo o resto do mundo se comportava como se aquele grito não tivesse ocorrido.
Um novo grito ecoou dentro dele. A direção não era a mesma, tampouco era possível reconhecer. E novos gritos vieram. Cada vez menos soavam como gritos, cada vez mais como chamados que ele seguia intuitivamente sem saber para onde estava sendo levado. O mundo ao seu redor permanecia inerte. Parecia ser só nele que havia movimento.

Olhou para um homem que tomava um café em um desses copinhos de isopor enquanto olhava distraidamente para a tela do celular que segurava com a outra mão. Camisa azul clara de manga curta, calça social marrom clara, por volta de quarenta anos. Aparentava a tranquilidade de quem já tem aquela rotina no automático e parecia realmente alheio aos gritos.

Foi então que o homem do cafezinho gritou. Desesperado. Ensandecido. Mas ao mesmo tempo em que ele gritava e seu rosto se transformava em uma máscara de pavor ele também continuava com o rosto sereno que olhava para o celular enquanto tomava café. Eram como duas imagens sobrepostas, e o grito ecoava dentro do seu peito, não nos seus ouvidos.

O homem do cafezinho o viu e correu. Ele correu atrás. De repente, as pessoas na rua pareciam estar todas prestando atenção neles. Eles correram tanto que o homem do cafezinho finalmente se cansou e sentou-se, exausto. Entregue.
– Por que você gritava? – perguntou ele.
– Era por causa de você – respondeu, entre fôlegos, o homem do cafezinho. – Você escutou os gritos da minha alma, e ela, que já estava tão acostumada a gritar sem ser incomodada, trouxe a tortura à superfície.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Conto

senti(n)do

ele estava com medo… aterrorizado. com medo de morrer. sentia-se sufocado pelas dores não sentidas, pelas palavras não ditas. ele estava congelando por dentro e tremendo por fora. as mãos, endurecidas, não conseguiam mais tocar os instrumentos. nem as pessoas. até onde sabia, não havia cura pra isso. e ele não queria entregar os pontos…

fez de tudo: tentou aquecer-se, tentou gritar socorro, tentou entender o que estava faltando. não conseguiu. o frio aumentava, ele parecia estar perdendo os sentidos. não ouvia mais seu coração bater acelerado como antes. pegou a estrada. embebedou-se. nos delírios solitários, voltou a enxergar as cores. mas ainda eram sombrias.

sentiu o cheiro da morte. nunca o havia sentido antes, mas o conhecia estranhamente bem. não tinha paradeiro. nem ressaca. prosseguiu sem rumo, sentindo enlouquecer aos poucos. nada fazia sentido. sua energia era consumida velozmente enquanto os vidros se estilhaçavam. o sangue escorria, mas as lágrimas não.

Deixe um comentário

Arquivado em Conto

Indecifrável

Permaneceu calado, desconfortável. A viagem para abrir as portas fechou a mais importante. Sofreu. Alguém estava lá, por acaso. Encontraram-se, mas não conversaram. Não tinham muito em comum. Continue lendo.

Deixe um comentário

Arquivado em Conto

O preço de todas as coisas

Ela nunca teve dinheiro. Mas teve sonhos. Os mais lindos, os mais encantadores, os mais mágicos, os mais verdadeiros. Todos eles. Para tê-los, não precisou gastar um centavo. Aliás, em seu mundo, não existiam moedas. Apenas as de chocolate, que valiam um abraço cada. Continue lendo.

4 Comentários

Arquivado em Conto

Onde há sonhos e canções

Levaram o garoto para outra dimensão. Ele gostou. Ficou hipnotizado. E hipnotizou. Anjos tocavam suas harpas. Tocavam também seus corpos, fazendo-o experimentar prazeres inimagináveis. Havia em tudo um magnetismo que fazia as sensações flutuarem. Ele não estranhou nem se preocupou com nada disso. Não era mesmo como os outros. Ninguém o entendia e ele estava muito bem ali. Mas o trouxeram de volta. Continue lendo.

4 Comentários

Arquivado em Conto

Areia e lágrimas

Não sei porque estou tão assustado. Tudo o que sei é que a gente podia fazer alguma coisa. Eu queria ser o seu preferido. Ou apenas ser o seu. Queria que você segurasse minha mão e ficasse tudo bem. Eu não queria ter medo. Ah, se meus temores fossem segredos! Pelo menos esconder seria divertido. Continue lendo.

5 Comentários

Arquivado em Conto

O peso das palavras

Disseram para ela que ela era especial. Que sua energia emanava cores que preenchiam de alegria as vidas deles. Que merecia uma vida de sonhos realizados. Que precisavam dela como precisam do ar para respirarem. Que era surpreendente, bela, sensível, e um monte de outras coisas. Ela acreditou. Continue lendo.

1 comentário

Arquivado em Conto