Arquivo do mês: janeiro 2017

Fotossíntese

(poesia dedicada a Ana Luiza Melo Ribeiro)

Naquele jardim impossível
Nascem flores tão singelas.
Nada ali é perecível,
Nem flores e nem donzelas.

Em meio a tanta beleza
Abstrata e concreta,
Poesia e singeleza
Formam a flor mais discreta.

É no bosque dos desejos
Que se desvenda a magia:
Ao mais suave dos beijos,
Brisa vira ventania.

Sopro forte, não se cansa,
Mas é doce e impactante.
É a sua exuberância
Que o torna tão marcante.

No centro de todo esse vento,
A pequena flor transcende.
Princesa que acolhe o relento
Fortalece e surpreende.

Segura do que faz e sente,
Delicada, nos conduz.
A flor, que nasceu da semente,
Traz a fé que há na luz.

PS: Essa poesia faz parte de uma série que farei esse ano, em virtude de uma promessa que fiz no Facebook. Prometi 12 peças de arte para as 12 primeiras pessoas que participassem da “corrente”. Ainda não completaram as 12 pessoas, então se você também quiser alguns escritos meus dedicados a você, basta participar do post clicando aqui.

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Ele e o homem do cafezinho

por Álvaro Dyogo e Gabriela David

Ele era um cara que não tinha muitos amigos. Não que ele soubesse. Enquanto ele se ocupava de suas coisas banais e tentava cultivar pequenos sonhos, tinha muita gente prestando atenção nele. Mas ele não fazia ideia. A questão é que ele tinha um senso de magnitude do universo muito apurado e por isso, sempre se sentia insignificante diante do todo. Mas não era assim que as pessoas o viam. Havia algo ali, beirando a superfície. Um poder latente prestes a despertar.

Nada foi planejado. Era uma terça-feira comum quando ele acordou cedo para pegar o pão fresquinho na sua padaria preferida, antes de começar a trabalhar. O que ele não esperava era ouvir aquele grito agudo vindo não se sabe de onde. Tudo o que ele percebeu era que cada pelo de seu corpo estava arrepiado. Olhou pros lados. Alguém mais tinha ouvido? Não era possível que só ele tivesse reparado. As pessoas estão anestesiadas a esse ponto?

Mas não havia nada de diferente e todo o resto do mundo se comportava como se aquele grito não tivesse ocorrido.
Um novo grito ecoou dentro dele. A direção não era a mesma, tampouco era possível reconhecer. E novos gritos vieram. Cada vez menos soavam como gritos, cada vez mais como chamados que ele seguia intuitivamente sem saber para onde estava sendo levado. O mundo ao seu redor permanecia inerte. Parecia ser só nele que havia movimento.

Olhou para um homem que tomava um café em um desses copinhos de isopor enquanto olhava distraidamente para a tela do celular que segurava com a outra mão. Camisa azul clara de manga curta, calça social marrom clara, por volta de quarenta anos. Aparentava a tranquilidade de quem já tem aquela rotina no automático e parecia realmente alheio aos gritos.

Foi então que o homem do cafezinho gritou. Desesperado. Ensandecido. Mas ao mesmo tempo em que ele gritava e seu rosto se transformava em uma máscara de pavor ele também continuava com o rosto sereno que olhava para o celular enquanto tomava café. Eram como duas imagens sobrepostas, e o grito ecoava dentro do seu peito, não nos seus ouvidos.

O homem do cafezinho o viu e correu. Ele correu atrás. De repente, as pessoas na rua pareciam estar todas prestando atenção neles. Eles correram tanto que o homem do cafezinho finalmente se cansou e sentou-se, exausto. Entregue.
– Por que você gritava? – perguntou ele.
– Era por causa de você – respondeu, entre fôlegos, o homem do cafezinho. – Você escutou os gritos da minha alma, e ela, que já estava tão acostumada a gritar sem ser incomodada, trouxe a tortura à superfície.

 

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