Arquivo do mês: janeiro 2016

A pobreza dos pobres

(resenha crítica de A Santa Joana dos Matadouros, de Bertolt Brecht).

Álvaro Dyogo

Brecht é implacável. Sua capacidade em realizar uma leitura social firme e absolutamente honesta torna muitas de suas obras verdadeiros ensinamentos sobre um determinado tipo de humanidade que tanto precisa acordar. A Santa Joana dos Matadouros nos leva a conhecer de perto os impactos da pobreza dos pobres (e não da maldade dos pobres, como enfatiza a personagem-título).

A luta de classes é escancarada diante da crise do mercado de carnes de Chicago e dos castigos impostos pelo clima gelado e cruel. Joana faz parte do grupo dos Boinas Pretas, espécie de comunidade que promove a misericórdia de Deus em meio a tantas privações. P. P. Bocarra é a personificação do patrão, grande empreendedor tentando sobreviver a este mercado em decadência.

Bocarra é ardiloso, molda suas atitudes de acordo com as notícias que recebe de Nova Iorque de que o mercado está em baixa. Vende e compra ações, estoca carne enlatada, monopoliza a criação de gado, tudo para tentar garantir seu império. Mas não suporta encarar a pobreza.

Quando confrontado por Joana a encarar a crueldade que promove, Bocarra parece titubear. A própria presença de Joana o inquieta: é uma voz rara, que parece genuinamente interessada no bem do próximo, e somente nisto. Seus companheiros Boinas Pretas, ao contrário, não revelam a mesma compaixão e fé ao serem colocados à prova.

Após abandonar o grupo, Joana decide privar-se e viver nas mesmas condições daqueles que defende. Paralelamente à sua saga, uma guerra insurge no mercado de carnes envolvendo desde os magnatas da carne, prejudicados pelas atitudes de Bocarra, até os operários das fábricas que, sem emprego, passam fome.

Levada a confiar na humanidade de Bocarra após conseguir influenciá-lo a algumas decisões (todas estratégicas, como descobrimos posteriormente), Joana acredita que os sindicalistas estão apenas promovendo a guerra. E deixa de entregar um bilhete que – provavelmente – desencadearia a greve geral dos trabalhadores. O resultado de sua atitude é a retomada do mercado de carnes com severas restrições, especialmente aos trabalhadores, que tudo aceitam devido à não consciência da mobilização da massa operária.

Joana é canonizada, convertida na Santa dos Matadouros, mas seu martírio vem da dor da culpa de não ter conseguido, tendo tido a chance, ajudar aos necessitados. A Santa Joana dos Matadouros parece querer revelar que a maldade humana provém muito mais da ambição e da falta de empatia do que de uma predisposição da gente pobre. Porque não se pode exigir, de quem não tem nada, que sobreviva somente com as próprias posses.

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