Resiliência?

(poesia dedicada a Gihana Fava)
Projeto “Escrito pra você

Desde que podia se lembrar
Daquilo que havia dentro de si,
Sempre tentando se encaixar,
Mais de uma vez pensou desistir.

Não era do tipo fingidor,
O certo é que pouco se sabia,
Mas ao não poder lidar, a dor
Fingia-se ir, mas não partia.

Pedia socorro, sem cessar,
O medo profundo repousava,
Calava sem que pudesse notar.
Bem ao redor a vida passava.

Foi só ao notar hemorragia
Que, tão eficaz, se disfarçava,
Que se percebeu em sintonia
Com sua criança que chorava,

Que se entendeu sobrevivente,
Tomou sobre si plena ciência.
O grito voraz, ora silente,
O eco fatal: resiliência.

Ergueu a muralha – fortaleza.
De se proteger já era capaz.
Só não previa que sua certeza
Mais uma vez partiria – fugaz.

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Cortina de fumaça

(poesia dedicada a Joyce Limongi)

Projeto “Escrito pra você

De comportamento amável,
De sorriso tão faceiro,
De expressão irretratável,
De carisma pioneiro.

De energia adolescente,
De furor contagiante,
De emoção impaciente,
De palavra estimulante.

De projeto bem pensado,
De talento indiscutível,
De passo bem planejado,
De caminho preferível.

De ovação sem precedente,
De aplauso retumbante,
De semblante transparente,
De alma viva e confiante.

De costume perigoso,
De estação ora errante,
De ato malicioso,
De memória de instante.

De olhar que vem de fora,
De desordem, de mordaça,
De busca pelo agora,
De cortina de fumaça.

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Ruínas

(Poesia dedicada a Yago Navarro).

Projeto “Escrito pra você

Demorou-se, belo dia,
Sob a árvore no chão.
O que ele não previa
Era a queda do trovão.

Era jovem, muita vida,
Muitos planos a cumprir.
Não estava de saída,
Precisou, porém, partir.

Sensação plena e intensa,
Brilhou forte o clarão.
Osso forte, carne densa,
Tudo foi-se. Explosão.

A cidade, acordada,
Viu o fogo consumir
Velha árvore cansada,
Então pôs-se a dormir.

Foram junto os demônios,
Todos eles, um por um.
Ao murcharem os hormônios,
Não havia sonho algum.

A ganância foi embora,
Nada importa, pois ruiu.
Todo o reino era, agora,
Energia que esvaiu.

E os tiros de honraria,
Fruto da imaginação,
Transformaram-se em vazia
E solitária cremação.

As apostas que fizera,
Inclusive as de vida,
Não passaram de quimera,
Missão dada e não cumprida.

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O tapa

(poesia dedicada a Talison Vardiero)

Projeto “Escrito pra você

Urgência premente
Traz, então, necessidade
De agir, fielmente,
Dentro da nossa verdade.

Do suave despertar
Às fugas: incompreensão.
Doce e tenro sussurrar,
Invocando exatidão.

Tantas voltas num percurso,
Tantas noites, um clarão.
Aqui não há mais discurso:
Só há fatos em questão.

Nunca é próprio um momento,
Pra que se possa falar
Sobre todo o sentimento
Que vem desde o despertar.

Quando nada era sabido,
Mas já era tudo claro,
Coração, tão escondido,
Batia intenso, mas raro.

Um provocador inato,
Do inferno ao paraíso
Leva o bobo, de gaiato,
Somente com um sorriso.

Se sorriso não humilha,
Machucar ele consegue.
Rir também é armadilha
Que a solidão persegue.

Mas não há um só caminho
Que não seja aprendizado:
Despertou ali, sozinho,
Sem viv’alma do seu lado.

Deu-se conta, num momento,
De que ele se bastava:
Pro autoconhecimento,
De nada mais precisava.

Veio tapa, e veio forte,
Veio certo e sem aviso.
Mas veio mostrar o norte,
Norte que era preciso.

Pois até em tão, sem norte,
Sentia-se tão perdido.
Encontrar-se afasta a morte,
Dando à vida mais sentido.

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Dueto

(Poesia dedicada a Felipe Marquezelli)

Projeto escrito pra você.

Átomos que expodem,
Livres pensamentos:
Vão e incomodem,
Ares de tormentos.
Riscos que implodem
Onde há sofrimentos.

Façam como podem,
Entrem nos momentos.
Livrem os que se fodem,
Inertes de talentos:
Peçam que eles rodem
Em meio aos nossos ventos.

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Memórias de magia

(poesia dedicada a Martha Lohse).

Projeto escrito pra você.

Muitos anos se passaram
Desde aquela sexta-feira
Em que os dois se encontraram:
A bruxa e o caveira.

Na escola de magia,
Eram sempre aqueles dois
Quando tudo acontecia
E não ficava pra depois.

Foram tantos personagens,
Tanta história ali vivida,
Que evocaram as imagens
Como ponto de partida.

Ela não era criança,
Não se achava, pelo menos.
No seu rosto, a lembrança
De camisas – as de vênus.

Ele achava esquisito,
Não acreditava mais,
Mas, ao soar o apito,
No rosto tinha animais.

Se a pedida era um bom rock
Dos que todo mundo gosta,
Decidiram, com um toque,
Firmar juntos uma aposta.

Cantariam, em dueto,
Como na adolescência.
Ou em trio. Ou em quarteto.
Despertaram consciência

De que corpo não tem nexo,
Nem a voz e o coração.
Como um só, ele é complexo,
Pensamento e sensação.

Acabou tudo assim,
Na mais plena comunhão,
Dos que podem dizer sim,
Mas que sabem dizer não.

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Cicatriz

(poesia dedicada a Bernardo Leal)
Projeto escrito pra você.

Qual é a chave?, quer saber
O menino com seu pato,
Para não enlouquecer,
Ir para o próximo ato.

Qual é a chave que detém
Todas as informações?
Que o levarão além,
Transformando as intenções.

Qual é a chave mais precisa?
A que melhor se encaixa…
Grasna, de forma indecisa,
Pato de cabeça baixa.

Chave clara ou chave escura?
Pequenina ou gigantesca?
A que abre a fechadura
É singela ou é grotesca?

Sem resposta, o sofrimento
De que não tem mais lugar.
Mas bem naquele momento
Ocorreu o despertar.

Pato esperto, inteligente,
Projetou a fantasia:
De uma forma diferente,
A porta se abriria.

Bateu asas, voo curto,
Num rasante já sumiu.
O menino entrou em surto:
“Fiquei só!”, já concluiu.

De repente, um sopro intenso.
Porta aberta: era um fato.
O menino, todo tenso,
Procurava pelo pato.

Se deu conta, em um instante,
De que pato não havia.
Uma dor, já tão distante,
Latejava em companhia.

Se a ferida, ainda aberta,
Não deixava ser feliz.
O pato, sempre em alerta,
Transformou-se em cicatriz.

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